O golo de figo

 

Sou daquelas pessoas que acredita que por trás de um símbolo existe sempre um significado e que por trás de um número, a matemática ordena a vida na terra. Apoiado na insustentável leveza de um génio do futebol, cuja relação comigo foi ao mesmo tempo construída de idolatria e desprezo (sou sportinguista por causa de Luis Figo, mesmo apesar de uma vez, nos meus tenros 5 anos, na saída da equipa do Sporting do velhinho Mário Duarte após um Beira-Mar vs Sporting, me ter encaminhado à sua beira para pedir um autógrafo e ter recebido um seco não por parte do mesmo; aproveitou Sá Pinto, vindo de trás, para fazer daquele autógrafo numa velha bandeira lagarta que ainda conservo, o contentamento de uma pobre criança) decidi, em conjunto com o João Borba, com o André Simões, com o André Martins, com o Luis André Freixo, com o Rafael Duarte, com o Carlos Carneiro, com o João Paulo Lacerda, com o Diogo dos Santos, com o Tiago Rodrigues e, the last but not the least, com o Samuel Garrido, iniciar um projecto no qual nos propomos a contar o futebol na medida exacta daquilo que achamos que “ele” é: uma enorme paixão nas nossas vidas.

Lembro-me perfeitamente do dia. Lembro-me perfeitamente do sentimento. Lembro-me perfeitamente da desilusão que dois anos antes Marc Battá nos tinha dado a nós portugueses quando, num decisivo Alemanha vs Portugal decidiu expulsar Rui Costa com um vermelho directo numa substituição no preciso momento em que nós, humildemente, tínhamos um pé dentro do mundial e, os campeões europeus em título um pé fora do mundial de 1998. Recordo-me perfeitamente do sentimento com que encarava o regresso da nossa selecção às grandes fases finais de uma grande competição internacional: dois anos antes tínhamos sido vergados a uma humilhante derrota por 3-0 em Wembley frente ao projecto de selecção que teríamos pela frente naquela quente noite de Eindhoven (Philips Stadium) 12 de Junho de 2000, um dia antes do meu 13º aniversário.

E os Ferguson boys atacaram.

A junção do trabalho de Ferguson com um misto de Arsenal e Liverpool (Sol Cambpbell, Tony Adams, Michael Owen) faria da nossa defesa um autêntico terror nos primeiros 15 minutos. A cada passe para a direita (os processos ofensivos da selecção orientada por Keegan eram do mais básico e britânico possível) para David Beckham (cruzamentos largos), Couto e Costa tremiam perante a oposição de 4 lendas deste e do outro mundo: Shearer e Owen, apoiados pela entrada do temível cabeceador Scholes e do extremo campeão europeu de clubes em 2000 pelo Real Madrid Steve Mcmanaman. Scholes e Mcmanaman marcaram dois perante o desamparado Baía.

Na altura, o meu pai, Carlos Branco, trabalhava por turnos e segundo o próprio, ao ouvir o relato do jogo, não se conteve em deitar algumas lágrimas quando aos 18″ os beefs dos três leões se adiantavam no marcador por 2-0 perante uma apática selecção nacional. Conhecendo o feitio rebelde do seu filho, em casa a ver o jogo pela tv, decidiu ligar. O outro, eu, marejado em lágrimas, chorava que nem uma Maria Madalena em acto de crucificação. Se o grupo que nos tinha calhado em sorte era por si difícil (Inglaterra, Alemanha e a carrasca Roménia que tinha vencido o nosso grupo), uma derrota frente à Inglaterra aniquilava por completo, a meu ver, as nossas hipóteses. Na minha pobre cabecinha não cabia sequer a hipótese de vencer os alemães na última jornada do grupo. O meu fantástico pai, homem de futebol, aquele que me contou e me mostrou todas as VHS que tinha de jogos gravados ao longo do tempo, aquele que me mostrou a elegância de Emilio Butragueño como líder da Quinta de Buitre, aquele que mostrou o quão terrível Futre poderia ser quando embalado com a bola no pé, a magnificiência dos alemães do Inter de Trappatoni ou a idolatria que tinha por Souness, o médio que revolucionou a forma de pensar do futebol britânico quanto às funções de um médio visto que Souness não era aquele típico médio carroceiro que se limitava a distribuir pau em tudo o que mexesse ou a cabecear bolas para inglês (escocês) ver; e também por Maradona, fez questão de me dizer: “vais ver que vamos meter o jogo no chão e vamos ganhar isto” – dito e feito.

 

 

A equipa lusa cresceu e o sol lusitano ergueu-se na Holanda.

Quando precisamente o então herói luso de toda uma catalunha, entretanto passado a patacos por Gaspart para Madrid após a competição para infelicidade dos adeptos culés, decidiu sacar daquele portentoso remate a 35 metros por debaixo das pernas de Tony Adams, o “alcoólico” central do Arsenal (vice-campeão da UEFA nessa época; perderam na final frente ao Galatasaray) indo a bola anichar-se com efeito no canto superior esquerdo (direito para quem chuta) da baliza de David Seaman. Não sei se Seaman terá subestimado a capacidade do grande produto das escolas de Alvalade aquando do remate, mas o que é certo é que o guarda-redes que fez carreira em Highbury Park sentiu tamanha dor nos rins quando a bola passou a alta velocidade para o fundo das suas redes.

Nuno Gomes resolveu. Jamais me esquece de ver a capa do Jornal A Marca no outro dia numa banca de jornais em Aveiro: “Gomes es un killer” – a reviravolta efectuada motivava a turma brilhantemente orientada por Humberto Coelho a um euro memorável que, em minha opinião, tinha que ser nosso pela simbologia que representava um país pequeno, em fase descendente no panorama europeu (a última grande conquista europeia de uma equipa portuguesa tinha sido 13 anos antes com a vitória do Porto na Taça dos Campeões Europeus; de 86 a 2000 apenas marcámos presença no euro-96) vencer uma grande competição internacional. Contra a França de Zizou, Desailly, Trezeguet, Thuram, Karembeu, Henry, Djorkaeff, Wiltord, Lizarazu, Barthez, Dugarry, Petit, Vieira, nomes que facto ficarão todos marcados no Olímpo do Desporto-rei, tivemos o azar de Abel Xavier meter aquela mão à bola para tentar ludibriar o árbitro da partida e forçar o jogo para as grandes penalidades. Como em 84, ano em que Jordão e Chalana fizeram picadinho da turma de Platini e Tigana em Marselha, morreríamos na praia.

É assim que nos propomos a não morrer na praia com o início deste projecto. Este blog destinar-se-à a fomentar a discussão sobre a actualidade do desporto-rei. Terá crónicas de jogos, comentários, artigos de opinião, fichas de jogadores, proezas, cantos, skills, dribles, declarações de treinadores, presidentes, agentes, transferências e a promessa de comprometimento à causa por parte da crew que o irá escrever.

Posta a mesa, resta-vos desejar que se regalem com a janta e façam desta a vossa casa.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s