A selecção de todos vós

Após uma correcta análise feita sobre o que correu mal no Brasil pelo João Branco e outra sobre as opções da linha mais avançada da selecção portuguesa por parte do Carlos Rafael, sinto-me à vontade para falar aqui sobre aquilo que vejo desta renovação da selecção nacional portuguesa. Desde já devo dizer-vos que sensivelmente desde o fim da era Felipão, deixei de apreciar a selecção como antes, deixei de sentir o entusiasmo nos jogos, deixei de vibrar e isto não foi por ter deixado de ter alguém que me pedisse para pôr a bandeira na janela ou porque o Figo deixou de jogar, simplesmente foi porque não concordei com a renovação e com as ideias que foram sendo implementadas e que nos levaram até ao presente da forma que bem sabemos. Claro que é mais fácil criticar agora, mas o que se segue é exclusivamente uma análise crítica àquilo que será (a meu ver) a selecção daqui para a frente.

1º – O aumento de poder a Paulo Bento

É verdade, Paulo Bento saiu do Campeonato do Mundo com reforço de poderes que foram anunciados talvez tarde de mais (2 meses após o desastre do Brasil). É algo estranho, uma vez que o presidente da FPF afirmou que “apesar de estarem reunidas todas as condições a selecção não atingiu os objectivos mínimos exigidos”. Noutros tempos em que chegámos a ter um seleccionador que saiu porque o seu objectivo era ter vencido o Euro 2000 e quedou-se pelas meias-finais, tal atitude de hoje seria muito mal recebida, mas ao invés disso a renovação que se pedia na selecção e que devia desde logo começar na cabeça que executa as escolhas ficou apenas por um reforço de poderes para essa mesma pessoa.

Vive-se aqui portanto um ambiente de prémio por objectivos não cumpridos o que pode vir a traduzir-se numa solução bastante inglória no futuro não muito longínquo.

Esta foi uma mudança que não classifico como positiva uma vez que a meu ver a mudança ideal seria a mudança de seleccionador nacional.

2º – As mudanças efectivas

Houve mudanças sim, mas essas verificaram-se apenas no departamento médico onde Henrique Jones sai de director clínico após 14 anos de serviço e vê-se substituído por José Carlos Noronha. Talvez fruto das muitas lesões irrecuperáveis registadas no Brasil, ou apenas porque um ciclo se encerrou e outro se abriu no departamento médico nacional esta mudança pode efectivamente vir a ser benéfica e pode mudar muitos paradigmas do departamento médico nacional, além disso esta é uma área em constante evolução e portanto a renovação deve ser parte integrante do curso normal da selecção.

Neste caso esta mudança é claramente positiva e pode vir a revelar-se bastante frutífera no futuro uma vez que além da mudança do director clínico também se incluem um fisioterapeuta e um especialista em medicina desportiva que passam a acompanhar regularmente todas as selecções quando possível, mas sempre a selecção principal, o que pode ter um efeito muito bom na componente física dos jogadores que vierem a representar a equipa das quinas.

Além do departamento médico, o departamento técnico sofre alterações ao nível estrutural, onde Rui Jorge e Ílidio Vale assumem papéis fundamentais no novo Gabinete Coordenador Técnico Nacional, permitindo assim que haja decisão alargada e previsão do projecto de carreira que um jogador jovem deve fazer ao longo da sua representação dos vários escalões de selecções.

Neste caso mais uma vez uma medida que parece ser positiva se vier a ser bem estruturada e implementada e que permitirá gerir melhor as carreiras dos jovens que por excesso de técnica ou mesmo por desmotivação devido ao nível competitivo em que se inserem não se encontrem a render desportivamente na sua plenitude. Resta que o Gabinete Coordenador consiga realizar essa triagem e que consiga estar sempre um passo à frente de forma a evitar casos desses.

3º – A renovação de seleccionáveis pós Mundial 2014

Ficou bem patente que o modelo usado até então está gasto, as escolhas feitas para o próprio Mundial já se revelaram escassas e muito curtas e é urgente que se mude, no entanto a mudança não foi feita de ânimo leve e basta analisar as listas de convocados pré Mundial e pós Mundial para percebermos duas coisas: Paulo Bento teve de engolir algumas das suas casmurrices (Adrien e Antunes) e Paulo Bento teve de dar o dito por não dito e aquele rapaz que era bom antes do Mundial agora não serve (Rafa), além disso não se percebem determinadas opções nesta renovação, como são o caso de Ricardo Costa que apesar de já estar numa liga bastante inferior, continua a constar nos eleitos e Raúl Meireles que fisicamente já não é o jogador estonteante que nos habituou a ser. A juntar a isto tudo ainda se podem questionar ausências de oportunidades para André André por exemplo, talvez porque enverga a camisola do Vitória de Guimarães e porque não tem um empresário suficientemente influente, porque em termos técnicos, tácticos e em regularidade já superou concerteza Miguel Veloso que neste momento se encontra fora de competição.

Muitas questões ficam no ar sobre as listas correctas, mas aqui claramente se dá lugar a opções discutíveis que poderiam ser substituídas por elementos de qualidade superior, no entanto razões haverá para estas escolhas e um dia gostaria de ver exposto por A+B as razões que levam à selecção de cada um, com factos em que o argumentário passe pela estatística e pela forma e não por outros factores.

4º – A ausência de jogos de preparação

Não sei se devido aos efeitos da preparação para o Mundial do Brasil, se por contenção de custos ou simplesmente para proteger os jogadores de lesões, não houve lugar a jogo de preparação da selecção para o embate de amanhã frente à Albânia. Talvez seja inteligente, eu diria que é arriscado, num elenco com caras novas, onde até o próprio jogo da selecção terá de mudar em função de CR não estar presente, acho que o mais indicado seria terem dado espaço a um amigável de preparação com uma selecção Eslovena ou Eslovaca, de forma a perceber em que estado estão os jogadores, como estão a adquirir os treinos da semana de estágio, como reagem às situações de jogo. Seria o mínimo exigível, no entanto não houve espaço para tal.

Apesar das mudanças há muita coisa que ainda necessita dos seus ajustes, a experiência negativa do Mundial parece vir dar força ao que está errado e manter o correcto longe dos caminhos da selecção, é por estas e por outras que ultimamente não perdi o meu patriotismo, mas deixei de vibrar e apoiar a selecção nacional, prefiro aqueles que fazem as coisas correctamente e que mostram que vale a pena trabalhar bem para ganhar.

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4 thoughts on “A selecção de todos vós

  1. Lanças aí boas questões André:
    – o porquê de Adrien não ter sido lançado no anterior ciclo e ser lançado agora.
    – o porquê de um jogador como Rafa ter sido levado a um mundial e não ter sido seleccionado para o primeiro jogo do novo ciclo.
    – o porquê de João Mário ter sido pré-convocado para o mundial e não ter sido convocado para este jogo em detrimento de um jogador com uma carreira de 1ª liga igual (Pedro Tiba).
    – a própria convocatória de Rafael Horta é no mínimo suspeita. É certo que é preciso renovação, principalmente nessa posição de carência, mas também é certo afirmar que o jogador ainda não tem provas dadas no futebol que justifiquem a chamada. O mesmo posso dizer de André Gomes. Porque é que são chamados? Será porque já jogam no estrangeiro? Haverão movimentos dos empresários nos bastidores de forma a valorizarem os seus activos?

    De resto, concordo na integra com a tua opinião. São poucas as federações que encaram a participação numa grande prova mundial com o contrato renovado com o seu seleccionador. As renovações acontecem na maior parte das vezes em situações em que os objectivos foram cumpridos. Sem mencionar que certos treinadores aceitam cargos nas selecções a prazo. Ou seja, quando aceitam a missão definem que esta vai durar no máximo x anos. O que me dá a parecer é que Paulo Bento fica porque é um treinador barato, sem mercado e, um tipo que não se importa muito com a ascendente predominancia do vector comercial em detrimento do rendimento desportivo.

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  2. Há um nome que te escapou: O Bruno Fernandes da Udinese! Não sendo um avançado puro (na Udine joga nas costas do Di Natale como um poacher) não daria jeito um jogador destes para o seleccionador ensaiar uma mudança táctica. Eu cá acho que dava… mas, sabes como é, desde o Sporting que nos habituámos a ver a casmurrice táctica (e o claro défice que ele apresenta na leitura de jogo e no conhecimento do adversário\adequação da equipa a esse mesmo adversário) do Paulo Bento…

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  3. Tal e qual João. A grande questão que quis enfatizar foi o facto de ter havido uma pseudo renovação que não foi mais que isso. As questões das listas de pré convocados e afins já todos sabemos como funcionam, mas acho que temos aqui material para desenvolver bastantes posts interessantes.

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