Quid Iuris, LvG?

Este é provavelmente um dos momentos mais hilariantes da conservadora carreira de Louis van Gaal. Estas imagens datam de Maio de 2010, altura em que o técnico holandês levou o Bayern de Munique ao 22º título da Bundesliga, uma semana antes de ter o privilégio de jogar a final da Champions contra o Inter de Mourinho, final cujo vencedor todos sabemos quem foi.

Alguns paralelismos se podem traçar entre dois case studies: a chegada de Louis van Gaal a Munique em Junho de 2009, numa altura da carreira em que o holandês estava na altura há 6 anos arredado dos grandes palcos do futebol mundial (não desprezando o trabalho fantástico realizado no AZ Alkmaar entre 2005 e 2009) e a chegada do mesmo Louis Van Gaal a Manchester em 2014.

Começando pelos clubes:

– Quando LvG chegou a Munique em 2009, apesar da equipa ter vencido 4 títulos alemães desde o início do século, o holandês teve como missão fazer aquilo que Jurgen Klinsmann não tinha conseguido fazer na época anterior: substituir um dos mais icónicos treinadores da história do clube bávaro (Ottmar Hitzfeld). Apesar do germânico somente ter vencido a liga alemã em 2005-06 e 2007-08, a relação de Hitzfeld com os responsáveis máximos do clube (Uli Hoeness e Franz Beckenbauer) não foi replicada pelo antigo avançado da Mannschaft. O estilo de jogo incutido por Klinsmann (a génese do futebol racional alemão com alguns toques de disciplina táctica italiana) não agradou nem a adeptos nem à direcção. Hoeness pretendia contratar um treinador ofensivo, que desse espectáculo e de preferência, pudesse ser dominador no plano interno e pudesse, acima de tudo, reafirmar o prestígio do clube na Europa.
Em Manchester, a conjuntura do clube no momento da entrada do holandês parece ter sido tirado a papel químico da realidade do clube alemão aquando da sua chegada em 2009 – Van Gaal entra em Manchester para fazer aquilo que David Moyes foi incapaz (continuo a acreditar que Moyes não teve tempo nem plantel para o fazer) de realizar: cortar com o legado de Sir Alex Ferguson e executar a transição pacífica de um clube vencedor para uma nova era na sua história.

– O ano de Louis em Munique foi tudo menos fácil. A direcção granjeou ao técnico holandês alguns fundos para poder atacar os targets que pretendia para reforçar a equipa. Numa liga cuja competividade e atracção estava na altura (actualmente não) muito longe das ligas espanhola e inglesa, van Gaal projectou o ataque a “alvos secundários” capazes de devolver estabilidade e ofensividade ao futebol dos bávaros. Assim sendo, tendo um Ribery na ala esquerda, decidiu juntar outro desequilibrador para a ala direita de nome Arjen Robben. A contratação do holandês ao Real Madrid fez soar os alarmes em Munique: ninguém acreditava que o eternamente lesionado holandês fosse capaz de chegar a Munique e passar mais tempo a deslumbrar com o seu vistoso futebol nos relvados que na enfermaria da equipa. A avançada medicina desportiva alemã encarregou-se de dissipar todas as dúvidas: Robben só seria utilizado quando o risco de lesão diminuísse drásticamente. E o holandês começou, desculpem o termo, a partir tudo. Até hoje…
Para a defesa e meio-campo, van Gaal apostou na contratação de dois jogadores da sua confiança, jogadores vindos precisamente da liga holandesa: Edson Braafheid para a esquerda da defesa e Danijel Pranjic para várias posições do terreno. Uma espécie de multifunções à semelhança da utilização que LvG pretende dar de Blind no Manchester. Versátil e tecnicamente acima da média, o croata que nada destas características mostrou na sua passagem em Alvalade em 2012\2013, poderia alinhar em 5 posições diferentes com semelhante nível de rendimento: lateral-esquerdo, médio centro, médio ofensivo, extremo esquerdo e extremo direito. Ambos fracassaram em Munique.

A paciência de Hoeness para Van Gaal esgotou-se rapidamente. Em Novembro, o carrancudo e conservador holandês pedia mais tempo para que os jogadores se adaptassem a um jogo ofensivo de passes curtos, rápida circulação de bola entre os 3 corredores de jogo, triangulações pelas alas e transições ofensivas rápidas. Contudo, no início desse mês os resultados tardavam em aparecer, iniciando o Bayern o primeiro grande ciclo de jogos decisivos da época num modesto 8º lugar. A paciência de Hoeness estava a esgotar-se e o despedimento parecia iminente. Até o próprio Van Gaal viria a confessar mais tarde que chegou a um momento em que por mais soluções que pensasse para a equipa, parecia existir alguma má-fé de alguns jogadores em executar no campo aquilo que lhes era pedido. Um deles era precisamente Bastian Schweinsteiger, jogador que Van Gaal fixou definitivamente no miolo, ao aperceber-se que o jogador estava a perder indices físicos na sua velocidade de ponta e a ganhar imensa resistência. Aproveitando a técnica individual do jogador e a sua resistência, o holandês viu no consagrado médio da Mannschaft um centrocampista nato, capaz de destruir e construir, fazer pressão em qualquer lugar do terreno e sair a jogar sem ter a necessidade, à semelhança de grande parte dos 8 mundiais, de olhar para as linhas de passe. Quando vê as linhas de passe fechadas no meio-campo, Schweinsteiger não te pejo de seguir em frente com a bola e esperar uma oportunidade para exercer o seu fortíssimo pontapé de meia-distância ou encaminhar a bola para os dois criativos da equipa.

Até que?

thomas muller

Quando o despedimento por maus resultados parecia iminente e o orgulho arrogante que se constitui como lema do clube bávaro (Mia San Mia) parecia completamente despropositado e vulgarizado pelo cenário de mais um ano de possível fracasso, analisando a possibilidade de subir alguns jogadores das reservas do clube devido ao facto da equipa principal não colher os princípios básicos do modelo de jogo que pretendia instaurar, LvG viu o sorriso de Thomas Muller. Apreciado com as características ideais ao seu modelo de jogo de um avançado raçudo capaz de jogar nas alas e capaz de vir atrás colher jogo e participar na circulação de bola da equipa assim como aparecer no centro da área a finalizar em estilo, Muller foi o primeiro a saltar para a equipa principal da equipa de Munique. Nas semanas que se seguiram ao motim dos b na principal equipa do futebol alemão, Van Gaal foi em força ao centro de estágios buscar menores: primeiro um central, de nome Badstuber, impiedoso na marcação e interessante a sair a jogar. O criticado Braafheid saiu imediatamente do onze e o jovem central foi lançado às feras na sua posição de modo a dar à equipa estabilidade defensiva no flanco (na táctica de LvG, Ribery não descia e Schweinsteiger faria as compensações ao flanco quando lá caíssem os dois alas adversários), depois David Alaba (inicialmente para jogar a meio-campo, ora no miolo ora na esquerda, aproveitando a sua fantástica capacidade de passe e o seu temível cruzamento), a seguir Diego Contento (um jovem ala direito que poderia ajudar Philip Lahm a descansar num ou noutro jogo de menor importância) e Mehmet Ekici.

Todas estas alterações foram realizadas nas vésperas de um jogo decisivo contra a Juventus para a Champions, no qual, um dos históricos clubes europeus seria eliminado da fase-de-grupos. Prevaleceu a atitude dos germânicos numa partida que terminaria com uma goleada dos bávaros por 4-1 no antigo Dell´Alpi.

O resto do trajecto já é conhecido: o caneco não escapou à equipa e a Liga dos Campeões foi perdida contra uma das equipas que mais mereceu vencer aquele troféu.

Apesar do holandês não ter permanecido à frente do clube (Uli Hoeness terá dito em Fevereiro ao holandês que não ficaria em Munique indiferentemente dos títulos que conquistasse naquela época; Van Gaal nunca caiu no goto do presidente, entretanto preso, do Bayern) é certo afirmar que lançou as sementes do novo Bayern: defensivamente despreocupado, ávido a jogar um futebol esteticamente lindo, rápido, de circulação fácil e veloz, criativo e acima de tudo mortífero. Heynckes e Guardiola foram, são, no caso do espanhol, beneficiários das sementes lançadas pelo holandês em 2009\2010…

(este post terá continuação…)

 

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