Crónica #2 – Portugal vs Albânia – Crónica de uma incompetência anunciada

nani

Um dejá vu… Aquela situação anteriormente vista. Aquela estreia sofrida contra uma equipa secundária que redunda num empate… ou numa derrota escandalosa. Os albaneses conseguiram hoje em Aveiro a sua 4ª vitória em rondas de apuramento para uma grande prova internacional. Depois de terem vencido grandes selecções europeias como a Macedónia, o Casaquistão ou a Noruega, a Albânia bate fora a selecção Portuguesa. E a incompetência apregoada pelo líder federativo como explicação do fracasso luso em terras brasileiras estendeu-se desde terras de vera cruz para cá.

Exibição desinpiradíssima de uma equipa que entrou sem dinâmica (o conceito de dinâmica apenas se aplica no primeiro tempo às combinações elaboradas por Nani e João Moutinho no flanco direito; os dois foram os únicos que conseguiram ter a lucidez necessária para tocar o andor para a frente), sem fio-de-jogo (como é que esta equipa poderia ter fio-de-jogo se nunca o teve?; se considerarmos que o único fio-de-jogo da equipa é levar a bola até aos corredores, o lateral e o extremo combinarem entre si e um deles cruzar, sim, esse é o fio-de-jogo da selecção na era Paulo Bento) e acima de tudo sem ideias para dar a volta quando se encontrava a perder.

As oportunidades foram muitas: duas cabeçadas de Ricardo Costa, uma de Pepe a livre de Nani ao lado, um remate de Nani à entrada da área bloqueado por um defesa albanês, um remate em arco de Ricardo Horta na 2ª parte à trave seguida de um autêntico penaste de Pepe por cima da baliza quando o central tinha tempo para dominar e fazer melhor; dois remates de Coentrão da esquerda: um ao lado, outro para Berisha fazer uma defesa para a fotografia).

Não se pode dizer que a Albânia tivesse chegado ao Municipal de Aveiro com a lição estudada. Pouco ou nada se viu desta selecção de leste. Na primeira parte aproveitaram a falta de dinâmica da selecção assim como a escassez de ideias, limitando-se a defender com bastante agressividade (agressividade a mais em alguns momentos do jogo) com uma defesa baixa, onde sobressaiu a marcação individual a meio-campo a João Moutinho. Com um meio-campo e um ataque estático, em muitas ocasiões do jogo, o médio do Mónaco, a passar ao lado de uma grande carreira no clube monegasco, olhava para os colegas mas não tinha linhas de passe. Existiram momentos de jogo em que estavam 5 jogadores nacionais escondidos atrás da linha média dos albaneses, à espera que Moutinho sacasse de um lance que lhes permitisse receber a bola à entrada da área. Depois de uma primeira parte desinspirada, os albaneses acreditaram que poderiam levar mais que um ponto do Municipal de Aveiro e, na única jogada com cabeça tronco e membros, João Pereira facilitou o cruzamento no flanco direito e Pepe, igual a si próprio, a 5 metros do seu marcado directo, deixou o avançado albanês fazer o único golo da partida.

Bento mudou. Tirou William Carvalho (lento de movimentos; interessante na primeira fase de organização de jogo; extremamente permeável do ponto de vista defensivo como de resto viria a verificar-se aos 42″ quando um jogador albanês irrompeu pela área e o trinco do Sporting limitou-se a deixá-lo passar para a linha de fundo, num lance onde felizmente não existiram consequências de maior) e colocou em campo Ricardo Horta. Antes já tinha substituído o queixoso Vieirinha (exibição apagadíssima do extremo do Wolfsburgo durante a primeira parte) para colocar em campo um “inútil” Cavaleiro que mal se viu no 2º tempo, excepto num lance em que quis fintar tudo e todos e levar a bola para casa, deixando-a sair pela linha de fundo. O extremo do Malaga ainda tentou dar alguma dinâmica ao jogo e, poucos minutos depois da sua entrada no rectângulo de jogo sacou do lance mais prodigioso da turma das quintas no inferno de Aveiro, atirando a bola à trave num remate em arco.

A incompetência manteve-se.

Assim como o fio-de-jogo (ou a falta dele) de Paulo Bento. Durante os 90 minutos, os portugueses voltaram a insistir no típico “bola para as alas, combinação entre alas e cruzamento” – este estilo de jogo resulta quando na área se tem um avançado mortífero. Éder não é esse avançado mortífero. Ou pelo menos só o demonstra ser em Braga. A bom da verdade, Éder nem sequer é ponta-de-lança para este estilo de jogo. Sendo um jogador de área (preferencialmente de um toque), não podemos ter lá um ponta-de-lança “só porque sim ou só porque não existe melhor” – Éder não é jogador para vir atrás buscar bola e participar no processo de construção de jogo porque não é um jogador dotado tecnicamente o suficiente para sair da área (e arrastar o seu marcador directo, construído um espaço que deveria obrigatoriamente ser aproveitado por alguém da linha média capaz de aparecer a finalizar) e dar de primeira para as alas de forma a conseguir baralhar as marcações e abrir esse mesmo espaço para a entrada de um 2º jogador. Para além disso, Éder não pode de maneira alguma fazer 2 faltas sobre o central adversário a cada 3 bolas bombeadas para a área ou ser, como o foi hoje, demasiado lesto no ataque às bolas que cruzaram a área e no remate, como o foi numa bola que lhe apareceu na zona de penalty à qual não conseguiu rematar, limitando-se a esperar que o jogador albanês, fortuitamente, o carregasse dentro da área.

Quanto a André Gomes, penso que foi tirada a prova dos 9: o jogador do Valência não joga nada. Não acrescenta nada à equipa. Todos os processos que executa estão carregados de uma lentidão tamanha, convidativa a que a outra equipa se sente numa cadeirinha e espere o previsível passe que o antigo médio do Benfica venha a executar.

Para terminar, destaque para a péssima arbitragem de Ruddy Bouquet. O francês nomeado pela UEFA para esta partida esteve muito mal no capítulo técnico disciplinar. Na primeira parte deixou os albaneses distribuir pancada a gosto. 2 das entradas mais ríspidas (uma sobre Coentrão e outra soube Moutinho roçaram claramente o vermelho directo). Nessa mesma altura deixou o guardião Berisha demorar uma eternidade para bater os pontapés de baliza. Na 2ª parte não viu uma falta descarada sobre Nani e uma grande penalidade sobre Pepe. Contudo, a péssima arbitragem do francês não apaga a péssima exibição portuguesa na partida desta noite.

Já diz o ditado antigo que “não basta parecer a mulher de César, é preciso sê-la” – este velho provérbio de origem Romana encaixa que nem uma luva para o presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Os problemas de fundo do futebol português que foram amplamente debelados após a eliminação do mundial não podem ser resolvidos com paninhos quentes. Não se pode atirar areia para os olhos na admissão de incompetência de toda a comitiva se as estruturas não forem radicalmente abaladas. As mudanças elaboradas no seio das selecções, em específico, da selecção sénior acabaram por provar que se calhar os únicos incompetentes foram os anteriores médicos da mesma. Ou somos todos incompetentes e damos lugar a quem seja mais competente que nós, ou então, à boa moda portuguesa, enterra-se a viola no saco, assobia-se ao ar e, como dizem nuestros hermanos espanhóis “no pasa nada” – Fernando Gomes optou pelo 2º modelo de conduta e poderá estar acometido a morrer pela boca como o peixe.

P.S: Não se esperem facilidades nos próximos jogos. A Arménia esteve muito perto de tirar dividendos da visita a Copenhaga, tendo estado a vencer por 0-1. Os dinamarqueses viraram o resultado para 2-1 no 2º tempo mas os armenios deram um alerta: estão no Grupo I para lutar pelas vagas que dão apuramento directo. Se esta Albânia, uma equipa sem disciplina táctica e sem jogadores tecnicamente dotados, conseguiu vir buscar 3 pontos a Aveiro, os Armenos, 100 vezes maisn disciplinados tacticamente e capacitados tecnicamente poderão vir a Portugal fazer o mesmo.

 

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