Crónica #9 – AC Milan 0-1 Juventus

milan

Depois de duas vitórias consecutivas, uma delas categóricas por 6-3 ao Parma, os adeptos rossoneri decidiram brindar a entrada da equipa no primeiro clássico da época com uma mensagem muito bonita: “Un anno di rabbia per tornare grandi” ou como quem traduz para português “Um ano de raiva para voltar a ser grande”

O regresso de Allegri a San Siro

Era um dos focos de interesse da partida. Mais de meio ano depois, Massimiliano Allegri voltou a San Siro, desta feita para jogar contra a última equipa que orientou antes da Juve e pela qual foi campeão na época 2010\2011. Allegri foi provavelmente um dos mais injustiçados treinadores do Milan. No ano que se seguiu ao scudetto pela turma milanesa, foi traído pela direcção de Galiani, que, num piscar de olhos lhe tirou as estrelas da equipa com Zlatan Ibrahimovic e Thiago Silva à cabeça. A estes dois seguiram-se Antonio Cassano, Jerome Boateng, Alberto Aquilani ou Andrea Pirlo. Allegri foi despedido e readmitido várias vezes por Galiani e por Silvio Berlusconi, vivendo durante pelo menos 2 anos sob constante ameaça de despedimento. Até que na época passada, os terríveis resultados da equipa levaram a que a direcção do Milan finalmente cortasse as vazas ao treinador e o substituísse por um dos seus maiores criticos, o holandês Clarence Seedorf.

Vencendo nas 2 primeiras jornadas da Série A, o jogo de San Siro servia de teste às reais capacidades desta nova equipa de Milão comandada pelo histórico (nas duas equipas) Pipo Inzaghi.

Com várias ausências por lesão ou castigo, casos do guarda-redes contratado ao Real Madrid Diego Lopez, dos centrais Mexés, Alex ou Daniele Bonera, e dos médios Riccardo Montolivo (o playmaker da equipa) e Michael Essien, o antigo avançado da Squadra Azzurra foi obrigado a mudar no onze, principalmente no eixo da defesa, posições que sem impedimentos de maior são ocupados normalmente por Cristian Zapata e Philip Mexes.
Inzaghi fez então alinhar num sistema táctico 4x3x3: Christian Abbiati, Mattias DeSciglio na esquerda, Cristián Zapata e Adil Rami no eixo defensivo e Ignazio Abate na esquerda, um meio-campo em triângulo constituído por Nigel De Jong como médio mais recuado, Andrea Poli na direita e Sulley Muntari na esquerda; na frente do ataque, Keisuke Honda voltou a ocupar o lugar de extremo-direito (falta claramente um extremo direito a esta equipa; Inzaghi estará à espera que Bonera regresse de lesão para meter o central\lateral no posto de lateral-direito de forma a subir Abate no terreno), Jeremy Menez na esquerda e Stephen El-Sharaawy na frente do ataque.

Já Max Allegri não pode contar para esta partida com o cérebro Andrea Pirlo e com o defesa Andrea Barzagli. Arturo Vidal recuperou a tempo de dar o seu contributo na partida mas começou o jogo no banco. Alinhando basicamente no esquema herdado por António Conte (actual seleccionador italiano), a Juventus alinhou com: Gigi Buffon; o habitual eixo de 3 centrais constituído por Giorgio Chiellini, Leonardo Bonucci e Martin Caceres, Stephen Lichsteiner como ala direito, Kwadwo Asamoah como esquerdo; um meio-campo em triangulo invertido constituído por Cláudio Marchisio (com funções de organização de jogo), Paul Pogba como médio interior esquerdo e Roberto Pereyra (emprestado pela Udinese) no direito e um ataque formado pela dupla Fernando Llorente e Carlitos Tevez. Em destaque durante a semana passada, o argentino detonou os estreantes suecos do Malmo na 1ª jornada da Liga dos Campeões com 2 golos. El Apache está a passar por um grande momento de forma e também, pode-se dizer, por um grande momento da sua carreira em Turim.

Estava claramente à espera de um jogo mais aberto. A Juventus acabou por sair vencedora porque de facto foi a única equipa que criou oportunidades de golo para merecer os 3 pontos perante uma equipa de Milão que é bastante organizada, defende bem, sai relativamente bem em contra-ataque (ora por Menez, ora por El-Shaarawy) mas revela alguma dificuldade para fazer circular a bola em ataque organizado, principalmente quando está a ser pressionada a toda a largura do terreno e alguma lentidão no seu sector de meio-campo.

O grande Nicola Rizzoli, na minha opinião o melhor árbitro do mundo, deu inicio a uma partida onde a Juventus quis mandar no jogo de imediato através da posse de bola. Cedo se percebeu que a equipa do Milan iria tentar conter a turma bianconera através de uma defesa baixa muito bem organizada, com alguma pressão executada ao portador do esférico e com algumas marcações individuais (casos de Poli a Pogba ou Muntari a Roberto Pereyra), esperando por uma oportunidade para sair em rápidas acções em contra-ataque com poucos jogadores. Por norma, com os 3 da frente. Descurando pressão ao construtor de jogo (Claudio Marchisio) a estratégia de Inzaghi passava por não deixar que tanto o francês como o argentino articulassem o jogo vindo do seu 8 para a frente de ataque, de forma a obrigar a equipa de Allegri a praticar um jogo mais directo (para Llorente; contudo tanto Zapata como Rami são jogadores com skills no jogo aéreo) ou para as alas à procura da velocidade dos dois alas da equipa, devidamente cobertos pelos laterais do Milan (assumiram durante toda a partida uma missão totalmente defensiva) devidamente ajudados por Honda e por Nigel De Jong. O Holandês foi novamente incansável. Correu milhas para dar estabilidade defensiva no miolo dos rossoneri.

Já na maneira de defender da Juve, Allegri não mexeu uma única palha em relação ao sistema construído por Conte. Com Bonucci a controlar El-Shaarawy, Chiellini tinha a responsabilidade de marcar Honda enquanto Cáceres teria que anular Menez, permitindo que os seus alas adoptassem uma postura mais ofensiva.
A equipa piemontese tratou imediatamente de pressionar alto para obstruir a saída de jogo do Milan, fazendo uma marcação apertada ao primeiro construtor de jogo, o holandês Nigel De Jong. Com DeJong altamente condicionado, sem que Zapata seja aquele central que goste de sair a jogar (o colombiano esteve muito certinho no primeiro tempo quando foi chamado a intervir tanto em antecipação a Tevez ou Llorente sempre que solicitados, tanto no desarme) a equipa do Milan não conseguiu assentar o seu jogo.

A primeira ocasião de perigo viria aos 6″ com o argentino Roberto Pereyra a rematar de fora-da-área em zona central, sem aparente pressão de um homem do Milan por cima da barra de Christian Abbiati. Com um início de jogo algo faltoso (num lance aéreo Cáceres saltou por cima de Menez e cravou-lhe os pitons na zona da bacia) desde logo se evidenciou uma luta em particular que haveria de marcar toda a partida (Marchisio\Muntari; o ganês e o italiano disputaram com rispidez muitas bolas a meio-campo, cometendo ambos muitas faltas. Com o decorrer da partida, o italiano assentou o seu jogo e foi dele que nasceram os principais lances de perigo dos bianconeri enquanto o ganês ficou-se apenas pelo jogo faltoso. Prendendo em demasia a bola a meio-campo com as suas acções individuais algo inconsequentes, é imperceptível a razão pela qual o antigo jogador do Portsmouth ainda tem lugar no plantel deste Milan. Mesmo com Allegri, Muntari rendia muito mais jogando à frente do terreno dada a sua apetência para aparecer na área ou à entrada desta a finalizar jogadas.
O jogo foi decorrendo com alguns nervos de parte a parte, com muitos passes falhados e sem que uma equipa se evidenciasse. Se do lado milanês Jeremy Menez aparecia nos primeiros 20 minutos em todo o lado (a carregar a equipa para a frente em transições rápidas pela zona frontal, na esquerda e em tarefas defensivas), do lado da Juve era sobretudo Roberto Pereyra quem criava linhas de passe aos colegas perante uma equipa de Milão muito bem organizada.

Uma das raras ocasiões de golo dos milaneses viria ao minuto 27″ quando Muntari cruzou da esquerda para a área onde apareceu Honda entre Chiellini e Bonucci a cabecear para defesa em voo de Gigi Buffon. O japonês foi bem estorvado num momento limite por Chiellini. A partir deste lance, os rossoneri voltaram a entregar a posse à Juve, evidenciando-se a partir daí Claudio Marchisio no pensamento de jogo dos homens de Turim.

À passagem da meia-hora, Marchisio picou a bola para a entrada da área para um esforço construído pela excelente entrada de Roberto Pereyra na área, o argentino amorteceu com um toque subtil para trás, permitindo a entrada de Tevez na cara de Abbiati. O veterano guarda-redes da equipa de Milão resolveu com uma defesa para canto. Circulando a bola com mais paciência, a Juve ameaçava: aos 33″ Roberto Pereyra tabela à entrada da área com Llorente e remata para defesa para o lado de Abbiati. Neste preciso minuto, Allegri teve que mexer pela primeira vez na equipa tirando Caceres devido a um problema físico (o uruguaio estava a ser o mais agressivo e o mais invasivo dos centrais da equipa quando tinha bola) para a entrada de Angelo Ogbonna.

Poucos minutos depois a Juventus voltou a carregar, tendo como o verdadeiro carregador de piano Claudio Marchisio: primeiro picou a bola de zona central para a área, apanhando a desmarcação perfeita de Bonucci. O central tentou enganar o guardião milanês com um pente no esférico mas a bola saiu por cima. Creio que se Bonucci tem feito apenas uma simulação para deixar passar o passe tenso de Marchisio, Abbiati estaria batido. Um minuto depois seria o próprio Marchisio a ensaiar a meia distância com a bola a ir embater com estrondo no poste direito da baliza do AC Milan. Neste lance, o remate foi permitido graças a um bloqueio legal de Llorente a Zapata. Num movimento dentro da lei, o espanhol passou à frente do central não deixando que este fosse fazer oposição ao remate do seu companheiro de equipa.

Até ao intervalo, o Milan tentou responder através de um remate na direita de Jeremy Menez que levou Buffon a defender tal bola rápida como mandar os manuais de instrução dos guarda-redes, ou seja, com os punhos para os lados.
Ao intervalo, apesar de não ter jogado um futebol vistoso, a Juve já justificava a vantagem perante um Milan ultradefensivo e um bocado vazio de ideias no ataque.

Se a primeira parte foi pouco intensa, o ritmo do início da 2ª haveria de cair ligeiramente. Desaparecido na primeira parte, Paul Pogba colocou mais à esquerda junto à linha. Com outra atitude, se na primeira parte Marchisio acrescentara mais objectividade à equipa, na 2ª, Pogba acabaria por ser decisivo nos 3 pontos conquistados pela Juve em Milão.

Num primeiro momento, aos 58″ Pogba recuperou uma bola a meio-campo a Muntari, numa daquelas situações em que o ganês se mostrou lesto a soltar a bola em terrenos proibidos e rematou com algum perigo à baliza de Abbiati. O seu remate haveria de ser desviado por um defensor.
Num segundo momento, o francês começou a por a sua inteligência em campo para abalar as fortes estruturas defensivas da equipa de Inzaghi com processos ofensivos simples, ora tentando acções individuais de 1×1 na esquerda, ora iniciando um carrossel de tabelinhas com Tevez, Marchisio e Pereyra a meio-campo para furar rapidamente o povoadíssimo miolo milanês. Não deixando o Milan sair de trás com pressão alta, facto que obrigou a equipa milanesa a bombear bolas para a frente à procura essencialmente de Menez (tudo muito confortável para os centrais da Juve), a equipa de Allegri tratou de montar a teia onde Pogba foi a aranha-mestre de tudo quando Marchisio colocou em Pogba à entrada da área e o francês, arrastando consigo 3 defensores que se encontravam nas suas imediações libertou nas costas para a entrada de Tevez já na área e consequente remate triunfal na cara de Abbiati. Cínica as always esta equipa da Juve só precisou de apanhar o primeiro erro de posicionamento dos defensores milaneses na 2ª parte para marcar o único golo da partida.

Inzaghi mexeu na equipa e no sistema táctico. Primeiro com a entrada do antigo jogador da Atalanta Bonaventura em campo para o lugar de El-Shaarawy (muito apagado), depois com a entrada de Torres para o lugar de Poli e Pazzini para o lugar de Honda, fazendo a equipa alinhar num 4x4x2 com Menez à direita, Bonaventura à esquerda e uma dupla de ponta-de-lanças constituída por Torres e Pazzini. Sem grandes efeitos práticos. Tanto o espanhol (entreante na equipa milanesa) como o extremo\avançado contratado à equipa de Bergamo foram inofensivos. Durante os 20 minutos finais, o Milan foi incapaz de esboçar uma reacção ao golo da Juve, não criando uma única jogada de perigo. Após o golo, Allegri jogou muito bem ao refrescar o flanco direito com a entrada do brasileiro Romulo para o lugar do apagadíssimo Steph Lichsteiner e com a entrada de Vidal para refrescar o miolo. O Chileno refrescou a batalha do meio-campo, secou Muntari e em dois lances ainda recebeu dois mimos (uma entrada a varrer que valeu o amarelo ao ganês e uma cotovelada) do jogador africano. Pelo meio, as duas equipas reclamaram ambas uma grande penalidade: a primeira num lance em que Rami protegeu o esférico de Pogba (o africano deixou-se cair à procura de mais) e noutra em que Jeremy Menez, ao tentar ultrapassar Claudio Marchisio com uma finta dentro da área aproveitou a estabelecidade posição do médio em sua oposição para tentar arrastar o pé junto do pé do adversário para cravar uma grande penalidade.

Vitória justa da Juventus perante um Milan que necessita de mais criatividade e acima de tudo de mais qualidade de soluções de plantel para poder finalmente regressar aos grandes exitos na Série A. Contudo, a equipa milanesa estará no bom caminho para conseguir sacar um lugar europeu nesta época.

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