Antevisão do Clássico

Tenho por experiência própria que à 6ª jornada, nenhum jogo grande decide o campeonato. A mesma experiência dita-me que os campeonatos são perdidos nos pontos que os grandes deixam contra os clubes pequenos, principalmente quando jogam em casa, especificamente nos meses de Fevereiro e Março. Um jogo grande apenas faz a diferença quando os grandes se defrontam nas últimas jornadas do campeonato (pontualmente falando) ou, no plano psicológico, abalando as estruturas mentais da equipa que sai derrotada do confronto.

Este Sporting vs FC Porto à 6ª jornada reveste-se de papel importância no plano psicológico pelo caminho que tem vindo a ser desenhado pelas duas equipas nas primeiras jornadas da prova. Vindo de uma goleada em Barcelos por 4-0 contra o Gil Vicente depois de um péssimo arranque de temporada, caso vença o Porto, a equipa de Marco Silva irá ganhar uma nova alma, alma que bem precisa para o decisivo confronto que terá terça-feira contra o Chelsea em Alvalade. Já o FC Porto de Lopetégui tentará sacar de Alvalade um excelente resultado para moralizar as tropas depois de dois empates consecutivos para a Liga frente a adversários de menor potencial, intervalados por uma brilhante goleada impingida aos bielorussos do BATE Borisov para a Champions.

Sporting

A equipa orientada pelo ex-estorilista Marco Silva tem revelado neste início de temporada alguns défices. Com um eixo defensivo algo instável, muito permeável e incapaz de sair a jogar, Naby Sarr e Maurício tem aqui uma oportunidade de ouro para ganharem confiança caso façam uma boa exibição frente à turma nortenha. O erro cometido na Eslovénia bem como a intranquilidade demonstrada frente ao Belenenses no jogo anterior ainda deverá estar na memória dos dois centrais. Se Sarr terá pela frente um adversário de peso como é Jackson Martinez, o brasileiro terá que controlar a impetuosidade que demonstra quando é chamado a intervir em cortes em carrinho ou nas bolas aéreas. Caso o jogo anime, o brasileiro é menino para deitar tudo a perder com uma entrada fora-de-tempo ou com uma falta dentro da área sem necessidade.

Na esquerda da defesa reside a única dúvida no onze do Sporting. Jefferson volta de castigo mas está abaixo de forma. O brasileiro não tem sido neste arranque de época o lateral agressivo e vertical que foi na última temporada. Defensivamente, todos os seus adversários directos que enfrentou nesta temporada podem dizer que o brasileiro lhes deu espaços a rodos para jogar. Por outro lado, em ascenção na equipa de Alvalade está o argentino Jonathan Silva. O argentino internacional sub-20 cumpriu com primor a oportunidade que lhe foi dada por Marco Silva em Barcelos, demonstrando garra e vontade de agarrar o lugar. Na primeira parte deu profundidade ao jogo do Sporting com as suas subidas no terreno, combinou bem com Capel e mostrou que é um lateral melhor que Jefferson ao nível do cruzamento. Defensivamente, já na 2ª parte, mostrou algumas dificuldades para parar o irrequieto Diogo Viana. Vai apanhar Quaresma pela frente. Em teoria, Jefferson será mais maduro para enfrentar o Mustang na noite de Alvalade. No entanto, se defender bem o extremo portista, sabendo que este não ajuda a fechar o flanco e deixa Danilo quase sempre a defender com 2, com Diego Capel, Jonathan poderia ser uma alternativa mais viável para tentar explorar aquele flanco.

No meio-campo, William, Adrien e João Mário serão as soluções do seu treinador para a batalha do meio-campo contra Casemiro e Ruben Neves. Os primeiros dois tem sido uma prestação errática. William continua a ser aquele jogador influentíssimo no meio-campo leonino, o verdadeiro recuperador de bolas. Contudo, ofensivamente, o internacional português não tem conseguido iniciar as transições como o fez na época passada e tem falhado mais passes que o normal. Já Adrien também está a realizar um atípico início de temporada. Se no passado o médio deslumbrou pela maneira em como poucos passes falhava e nas acelerações que promovia no meio-campo do Sporting (indiferentemente das linhas de passe que os colegas lhe iam abrindo), este ano tem realizado muitos jogos medianos, recheados de passes falhados e de uma postura longínqua daquele que foi o comportamento guerreiro demonstrado na temporada passada com Leonardo Jardim.
Ao seu lado terão o verdadeiro cérebro da equipa leonina. João Mário ganhou indiscutivelmente a titularidade a André Martins, revelando ser o playmaker que esta equipa do Sporting necessita. Com um sentido estético soberbo e inquestionável valor promovido pela forma como lê o jogo ao nível do posicionamento dos colegas e dos adversários e executa ao nível de passe, este talento da formação do Sporting é um jogador capaz de pegar no jogo, pensar, executar, dar fluidez e rapidez ao jogo leonino e, ainda ser um perigo nas rápidas transições em contragolpe que o Sporting possa ter no decurso das partidas.

Nas alas Capel e Nani serão 2 dos desequilibradores da equipa. O espanhol é um clássico do futebol português. Com um jogo limitadíssimo do ponto de vista estético (receber, ir à linha e cruzar; receber e cravar a sua falta ao defensor mais à mão; de vez em quando consegue fazer uma flecção da esquerda ou da direita para o meio e cruzar ou chutar) o espanhol esconde essas mesmas limitações com um enorme sentido de luta e profissionalismo. Já de Nani podemos esperar tudo. O jogador voltou a ganhar confiança em Alvalade. Já não é o mesmo jogador que trava e congela todas as jogadas nos seus pés. Mais fluído que o Nani que vimos durante várias épocas fracassar em Manchester, quando tem a bola tem um leque de soluções técnicas que lhe permitem um 1×1 tanto na ala como no meio, seguido de cruzamento, combinação, tabelinha com Slimani ou remate de meia-distância, formato que lhe permitiu marcar 2 golos nos últimos jogos.

Na frente, o mágico Slimani. O argelino está a aprender uma nova forma de jogo com Marco Silva. O treinador tem pedido ao internacional que seja aquele avançado completo capaz de ombrear com os defesas nos lances áereos e, capaz de sair fora da área para tabelar com alguém vindo de trás, capaz de ir às alas buscar jogo e encaminhar para um companheiro. Está a progredir a olhos vistos no jogo com os pés, revelando ainda alguma dificuldade para finalizar pelo solo.

No banco Marco Silva terá à sua disposição algumas soluções para abalar a partida se a equipa assim necessitar ou para gerir o resultado:
– Carlos Mané é um jogador que entra com muita energia e criatividade. O jovem é fortíssimo no drible 1×1 e é um jogador capaz de fazer a diferença no corredor central à entrada da área, sector onde o Sporting não consegue construir muito jogo, através de rasgos individuais promovidos pela sua fantástica capacidade de drible ou em tabelinhas com Nani e Slimani.
– Rosell – O catalão poderá ser alternativa de meio-campo quando o Sporting precisar de refrescar esta zona. É uma autêntica carraça atrás dos adversários. Mostra serenidade no capítulo do passe.- Fredy Montero – O jogador está a passar a pior fase da sua carreira profissional. O jogo contra o Porto poderá aliciá-lo a dar a volta aos acontecimentos.
– Carrillo – Se estiver em dia, o peruano é temível. Se estiver em dia não, mais vale não sair do banco.

Frente a um Porto que meteu toda a carne no assador.

Os 30 anos de Jorge Nuno Pinto da Costa evidenciam que a cada ano mau do clube (por ano mau deve-se considerar não ganhar um título) rolam cabeças no clube, fecha-se um ciclo e constrói-se outro com outros protagonistas.

Julen Lopetegui poderá acusar a experiência de nunca ter trabalhado num grande. Assente numa base de confiança, o novo treinador do Porto pediu à direcção jogadores de confiança com quem trabalhou nos escalões jovens da selecção Espanhola. De Espanha vieram soluções para todos os gostos: o lateral José Angel para dar mais competitividade a Alex Sandro (competitividade que faltou ao brasileiro na temporada passada para aumentar os seus níveis de rendimento) Oliver Torres (um criativo fantástico que é capaz de criar perigo em qualquer posição do ataque através da sua visão de jogo, dos seus passes de ruptura ou do seu formidável 1×1) Adrien Lopez, Yacine Brahimi, Cristian Tello ou Casemiro. A estes juntam-se mais um central (Ivan Marcano) e um puto maravilha descoberto na pré-época (Ruben Neves)

A filosofia que inspira o modelo de jogo incutido no clube pelo técnico espanhol anda muito próxima do tiki-taka aplicado em Barcelona, ou seja, gerir a posse de bola para dominar, atacar impiedosamente para dominar.

Este Porto é uma equipa defensivamente coesa, com dois bons laterais que tanto sobem muito bem no terreno como defendem, um eixo central duro que tem sido por ora a única dor de cabeça do técnico espanhol graças à sua extrema impetuosidade em lances em que a abordagem deve ser mais calma e ponderada, pela incapacidade que os centrais do Porto demonstram no jogo para as suas costas (jogará Marcano no lugar do castigado Maicón) e pelas dificuldades que esta defesa tem em colocar-se sempre em linha com as subidas dos laterais.

No meio-campo, apesar de não percorrer, cobrir e agir num perímetro tão grande como Fernando, Casemiro tem dado conta do recado, aventurando-se também na missão de ser o primeiro a construir jogo na equipa. O brasileiro revela eficácia no passe curto mas não é tão eficaz quando tenta colocar passes longos. Ao seu lado tem Ruben Neves, um jogador tacticamente inteligentíssimo, capaz de fazer a cobertura às alas quando a equipa necessita e exímio no capítulo do passe. Ruben Neves faz a interligação perfeita com um sector ofensivo cheio de mágicos: Oliver mais à frente, extremos para todos os gostos (desde o criativo Brahimi, capaz de desequilibrar no 1×1, no 1×2, cruzar na perfeição para Jackson ou arriscar a finalização, ao mágico Quaresma, passando pelo pragmático Evandro, pela visão de jogo exímia de Cristian Tello, jogador que também é capaz de inventar maravilhas à entrada da área ou ao futebol menos colorido de Adrien Lopez, jogador que apesar de ter sido utilizado como segundo avançado no Atlético de Madrid de Simeone, ou seja, nas costas de Diego Costa, revelando mais capacidade e habilidade para funcionar como uma espécie de poacher que gosta de receber nas costas da defesa e criar oportunidades para o seu ponta-de-lança, tem sido utilizado nas alas por Lopetegui.

Na frente, Jackson Martinez é aquele avançado que não perdoa uma bola quando as tem na cara do guarda-redes. O colombiano nunca dá um lance como perdido e é, como se sabe, um grande finalizador.

Espero..

Um jogo em que o Sporting entre ao ataque e retire o ímpeto inicial que faz jus à identidade que Lopetégui está a construir nesta equipa do Porto. Será um jogo muito batalhado a meio-campo, muito fechado nas alas (os laterais de ambas as equipas sabem perfeitamente que os seus adversários são os maiores criadores de perigo de ambos os conjuntos; espere-se uma atitude mais defensiva dos laterais do Porto visto que nem sempre Brahimi e Quaresma fecham os flancos) e um jogo no qual a primeira desconcentração de alguém poderá pagar-se caro. Aposto num empate. O Sporting já não perde um clássico em Alvalade para o campeonato desde 2008 enquanto o Porto já leva 313 minutos sem marcar em Alvalade em jogos a contar para o campeonato.

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