A fantástica selecção de sub-21

A selecção de sub-21 está de parabéns pela conquista obtida em Paços de Ferreira ao apurar-se pela 9ª vez para o europeu da categoria desde a sua criação em 1978!

Em primeiro lugar, Rui Jorge está de parabéns. O seleccionador português fez um trabalho fantástico, mesmo quando a Selecção A lhe foi roubando atletas fruto das suas necessidades ao longo dos últimos meses (Bruma, João Mário, André Gomes, William Carvalho, Ricardo Horta, Cedric, Ivo Pinto, Anthony Lopes, Ruben Vezo, Rafa, Ivan Cavaleiro), manteve um discurso coerente assente na prosecução de um objectivo que tinha que ser atingido a qualquer custo (a qualificação), moralizou as tropas de que dispôs em redor desses objectivos e no final conseguiu o melhor de dois mundos: a qualificação só com vitórias (a bom da verdade, esta Holanda mostrou muito mais no jogo de Paços de Ferreira do que no jogo de Alkmaar e vendo bem as coisas esteve bastante perto em duas ocasiões de liderar a qualificatória por golos fora) e o desenvolvimento ao mais alto nível de jogadores que, a meu ver, terão quase todos o seu espaço na próxima geração da selecção A.  Pode-se até dizer que esta equipa até fica melhor sem os jogadores que entretanto deixaram de participar no trajecto por terem subido aos AA, mas, para uma fase-de-qualificação daquele nível de exigência, não levar o trio do meio-campo que a Selecção A “roubou” à selecção de sub-21 poderá considerar-se um crime.

A turma portuguesa desenvolveu-se, ganhou experiência internacional, praticou um futebol vistoso e mereceu por inteiro esta qualificação pelo futebol desenvolvido, pelo brilhantismo individual demonstrado por alguns dos seus actores (Bernardo Silva foi sem dúvida aquele que demonstrou mais talento neste trajecto) e pelo trabalho desenvolvido no plano mental. Mesmo a um passo da eliminação quando a Holanda vencia, os jogadores portugueses souberam quase sempre dar a volta por cima e encontrar forças para vencer o jogo.

Esperemos que a caminhada vitoriosa se mantenha na República Checa. Depois deste prodigioso apuramento, é difícil não esconder a ambição que rodeia esta selecção: vencer o Europeu que será disputado no próximo mês de Junho naquele país do centro da europa. No entanto, é preciso ter noção da realidade que esta selecção irá encontrar na República Checa: assim como nós temos um leque de jogadores a jogar ao mais alto nível em grandes ligas europeias e até em grandes clubes europeus (alguns deles são opções regulares em clubes que estão no topo das principais ligas europeias e em clubes que disputam a champions), as outras selecções também os tem e, até tem jogadores muito mais calejados ao nível de experiência internacional como são os casos de Federico Bernardeschi (Itália\Fiorentina), Ter Stegen (Alemanha\Barcelona), Jonas Hoffman (Mainz\Borussia de Dortmund\Alemanha), Bernd Leno (Alemanha\Bayer Leverkusen), Max Meyer (Schalke\Alemanha), Nemanja Radoja (Sérvia\Celta de Vigo), Lucas Andersen (Dinamarca\Ajax), John Guidetti (Celtic\Manchester City\Suécia), Luke Shaw (Manchester United\Inglaterra), Tom Ince (Crystal Palace\Inglaterra) ou a dupla do Tottenham Eric Dier e Harry Kane. Isto não contando com a possibilidade de virmos a ter no Europeu jogadores cujas idades ainda permitem jogar esta competição, mas que já passaram há muito para as selecções principais dos seus países como são os casos de  Milos Jojic e Lazar Markovic (Sérvia), Skodran Mustafi, Erik Durm, Mathias Ginter, Leon Goretzka, Emre Can (Alemanha), Pierre-Emile Hojbjerg e Youssuf Poulsen (Dinamarca) ou Calum Chambers e Raheem Sterling (Inglaterra). Este europeu será sem dúvida a rampa de lançamento de muitos talentos para a alta roda do futebol europeu.

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Crónica #19 – Holanda sub21 0-2 Portugal Sub-21

Rui Jorge e os seus comandados estão de parabéns! A Selecção de Sub-21 deu hoje em Alkmaar um passo de gigante rumo ao Euro 2015 na República Checa ao vencer categoricamente a selecção da casa por 2-0.

Apostando num 4x4x2 losango, o seleccionador nacional aproveitou o excelente momento de forma de Bernardo Silva para o colocar na posição 10 em detrimento de Rafa. O jogador do Sporting de Braga jogou como médio interior direito, num meio-campo onde para além deste e de Silva alinharam Sérgio Oliveira como médio interior esquerdo e Ruben Neves como 6. Sem poder contar com Tiago Ilori para o eixo da defesa, Rui Jorge deu a titularidade a Paulo Oliveira e Ruben Vezo. Os dois centrais portugueses fizeram uma exibição quase irreprensível, sendo apenas incomodados por Elvis Manu e Luc Castaignos nos primeiros minutos.

A tarde de glória da turma das quinas começaria com um sobressalto. Logo aos 4″, numa fase em que as equipas aproveitavam os primeiros minutos para assentar o seu jogo e estudar-se mutuamente, Elvis Manu haveria de aparecer ao primeiro poste a rematar à trave da baliza de José Sá após um grande trabalho individual do lateral esquerdo Jetro Willems. O lateral seria uma das figuras da partida durante os primeiros 20 minutos. A subir com confiança no flanco, sem medo de ir para cima de Ricardo Esgaio, Willems colocou alguns cruzamentos na área que causaram algum perigo à baliza portuguesa.
No minuto seguinte, a turma das quinas iria responder com um grande remate do nosso lateral-esquerdo Raphael Guerreiro para uma defesa apertadíssima de Warner Hahn. Guerreiro tentou finalizar com um remate em força depois de uma rapida investida pelo flanco.

Desde cedo que Portugal pôs em prática o modelo que iria derrotar esta equipa holandesa: fechando muito bem os flancos não permitiu que tanto o lateral Willems como o extremo Elvis Manu como o extremo-direito Anwar El Ghazy pudessem criar situações de desequilíbrio pelas alas. No meio-campo, uma pressão efectiva sobre o médio defensivo Nathan Aké (jogador das reservas do Chelsea) e sobre Adam Maher obrigaram os centrais holandeses a longas trocas de bola ainda no seu meio-campo e impediram que os holandeses progredissem no terreno ao impedir que estes dois jogadores (os cérebros da equipa holandesa) tocassem no esférico através do corte de linhas de passe. Recuperando rapidamente a bola no miolo, os Ruben Neves, Sergio Oliveira e Bernardo Silva começaram a incutir muita dinâmica e muito critério na construção de jogadas ofensivas, aproveitando as boas subidas no terreno dos dois laterais portugueses e a ajuda que os avançados (Ivan Cavaleiro e Ricardo) iam dando nos 2 flancos. Foi por exemplo de uma combinação na esquerda entre Raphael Guerreiro e Ivan Cavaleiro que nasceria por exemplo o lance do penalty que iria dar o primeiro golo à equipa lusitana.

Antes desse momento, onde Bernardo Silva trocou as voltas ao central holandês Sven Van Beek, obrigando-o a rasteirá-lo dentro da área, já Ivan Cavaleiro tinha feito um 8 do central do Feyenoord. Ao minuto 15 ganhou-lhe uma disputa pela bola em velocidade pelo corredor esquerdo, passou-o ganhando a linha e só não inaugurou o marcador porque foi lesto a atirar à baliza de Hahn com angulo reduzido. O central haveria de se redimir da falha com um corte providencial quando o jogador do Deportivo (emprestado pelo Benfica) se preparava para rematar.

A pressão portuguesa sobre Aké e Maher durou 35 minutos. Só a partir deste minuto até ao intervalo é que a Holanda começou a construir jogadas de ataque com pés e cabeça. Aké conseguiu finalmente iniciar as transições para o meio-campo português enquanto Maher começou a pensar o jogo holandês através da sua precisão no passe. Quando estes dois passaram a ter mais jogo, a Holanda criou perigo junto da baliza de José Sá. Tendo como referência de ataque Luc Castaignos (leva 6 golos na Liga Holandesa ao serviço do Twente) o jogo holandês neste período foi mecanicizado para servir bem o seu ponta-de-lança. Ganhando uma interessante sequência de cantos (os holandeses foram matreiros nos cantos ao colocar um ou mais jogadores na pequena área a estorvar a acção de José Sá; o guarda-redes do Marítimo B conseguiu resolver quase todos os lances onde foi chamado a intervir) os holandeses tentaram colocar a bola em condições para o poder de fogo do jogador do Twente. Contudo, este nem sempre se posicionou no sítio certo para receber a bola em condições de finalizar e quando o fez teve à frente um Paulo Oliveira inspirado a negar-lhe oportunidades. O jogador do Sporting confirmou que está a passar por um bom momento de forma e que pretende agarrar a titularidade no clube leonino e na selecção de sub-21.

Até que, findo o maior momento de pressão dos holandeses à nossa área, Bernardo Silva brindou os milhares de portugueses que viram o jogo no Estádio e na TV com a jogada do encontro. Derrubado por Van Beek (se até então o central estava a jogar sobre brasas, a partir do momento em que recebeu o amarelo, o central do Feyenoord nunca mais se recompôs e permitiu alguns lances ofensivos de Cavaleiro e Mané na 2ª parte para não fazer falta e assim ser expulso da partida; um desses lances foi o do 2-0).

Sérgio Oliveira não tremeu na marca dos onze metros e deu vantagem a Portugal ao cair do pano do primeiro tempo.

No início do 2º tempo o seleccionador holandês tentou promover uma alteração com a saída do lateral direito do Ajax Ruben Ligeon para a entrada para a mesma posição Joshua Brenet. A ideia do seleccionador holandês era colocar um homem num dos flancos capaz de sair a jogar pelas alas de forma a “driblar” a enorme pressão que a selecção portuguesa ia incutindo na saída de bola dos holandeses pelo corredor central.

Contudo, tudo se manteve e a selecção portuguesa continuou cómoda no jogo. Logo aos 26 segundos do segundo tempo, Ricardo foi buscar uma bola ao flanco direito e cruzou para o lado oposto onde apareceu Sérgio Oliveira solto de marcação a atirar de primeira ao lado da baliza de Hahn. 2 minutos passados, Ivan Cavaleiro voltou a ganhar a linha a Van Beek pela esquerda. Num movimento muito parecido com o que tinha feito na primeira parte, permitiu a defesa da tarde a Hahn. O guardião holandês ia conseguindo evitar males maiores.

A equipa portuguesa conseguiu anular os jogadores mais perigosos da Holanda (Elvis, Maher, Castaignos, Willems não subiu tanto no terreno a partir dos 20 minutos) foi mais pressionante, mais rápida sobre a bola, mais criativa (excelente envolvimento de Bernardo, Cavaleiro e Guerreiro no lado esquerdo e de Ricardo e Esgaio no lado direito).
Ao nível defensivo, destacou-se a excelente coordenação defensiva dos defesas portugueses que permitiu colocar os avançados holandeses em fora-de-jogo em todas as situações em que o seu meio-campo tentava isolá-los nas costas da defensiva portuguesa.

Portugal voltaria a ameaçar o 2º golo aos 58″ por intermédio de Raphael Guerreiro. O lateral do Lorient fez uma nova incursão pela esquerda seguida de um potente remate para defesa de Hahn.

Rui Jorge sentia que a qualquer momento poderia marcar mais um golo e resolver a eliminatória. Aos 63″ o seleccionador refrescou o ataque com a entrada de Mané para o lugar de Cavaleiro, posicionando-se o jogador do Sporting no lugar do jogador do Deportivo, ao lado de Ricardo na frente de ataque. Se a Holanda ainda ameaçou o empate por intermédio de Castaignos nesse mesmo minuto (bem servido na área pela esquerda, recebeu de costas para a baliza e não conseguiu melhor porque José Sá foi rápido a fechar-lhe o ângulo de remate), Mané haveria de resolver (creio) a eliminatória com um lance de mestre no qual recebeu um lançamento de Raphael Guerreiro a meio do terreno, passou por Van Beek (condicionado com um amarelo, o central do Feyenoord não quis fazer falta para não arriscar o segundo), passou pelo meio de 3 jogadores holandeses para entrar na área e na cara de Hahn atirou cruzado em arco para o 2º golo da equipa portuguesa, estabelecendo o resultado final de 2-0.

Resultado merecidíssimo para a equipa de Rui Jorge. Os sub-21 portugueses conseguiram em Alkmaar meio-bilhete para a fase final do Euro 2015 na República Checa, bastando para tal gerir a vantagem obtida no jogo de Paços de Ferreira. Uma das ilações que pude tirar deste jogo é que a selecção de sub-21 decerto não deverá precisar dos reforços que estão ao serviço da AA. Como é sabido William Carvalho, João Mário e André Gomes poderão dar o seu contributo a esta selecção no europeu que se disputa em Junho do próximo ano. Contudo, Ruben Neves, Sérgio Oliveira, Rafa e Bernardo Silva deram conta do recado (o jogador do Braga foi o único que teve uma prestação menos conseguida neste jogo em virtude de estar a jogar fora da posição que lhe é habitual e com funções e rotinas de jogo bastante diferentes daquelas que tem em Braga) promovendo uma pressão asfixiante que não permitiu aos holandeses pegar no jogo em qualquer momento da partida e, ofensivamente, colocando enorme velocidade nos processos de transição e circulação de bola. O médio do Porto não se coibiu de tentar o passe longo por várias vezes ao longo da partida assim como Bernardo Silva foi letal no 1×1 e na oferta de linhas de passe tanto aos seus colegas do meio-campo como aos laterais e avançados. Com a sua enorme disponibilidade física, o jogador formado no Benfica apareceu muito bem em todos os corredores, oferecendo linhas de passe aos companheiros e muita criatividade.

A selecção Holandesa terá que fazer pela vida se quiser ir ao Europeu da categoria. A equipa de Adrie Koster deixou a equipa portuguesa jogar a seu belo prazer no seu meio-campo, revelou muita intranquilidade nos processos de transição quando pressionada e muita intranquilidade defensiva no eixo central da defesa. Van Beek foi, como se diz na gíria, papado de todas as maneiras. Karim Rekik pareceu ser mais esclarecido e mais eficaz, mas, a bom da verdade, Ricardo não foi tão irrequieto quanto Ivan Cavaleiro ou Carlos Mané, facto que facilitou a vida ao central holandês. O seu organizador de jogo Adam Maher escondeu-se em demasia entre as linhas portuguesas. Nathan Aké foi vaporizado pela eficácia da pressão portuguesa. Ao não ter jogo nos pés, obrigou invariavelmente a sua equipa a tentar sair pelas alas e a despejar o máximo de bolas que conseguissem despejar para a área à procura de Castaignos. O extremo-esquerdo Elvis Manu acabou por ser o único esclarecido dentro desta equipa holandesa. O extremo do Feyenoord tentou ganhar a linha várias vezes a Ricardo Esgaio de forma a servir Castaignos na área. Aproveitando algum espaço dado pelo lateral do Sporting construiu na esquerda um par de oportunidades que Castaignos não soube aproveitar.

Pré-convocatória de Fernando Santos

O seleccionador ainda não divulgou publicamente a sua pré-convocatória e fez questão de afirmar ontem à entrada de Alvalade que não o iria fazer ali.
No entanto, já começaram a sair os primeiros rumores que dão conta que o seleccionador nacional pré-convocou alguns nomes riscados por Paulo Bento no decurso do seu mandato à frente da selecção nacional (Ricardo Carvalho e Danny) e tem demonstrado aceitação em utilizar a semana de trabalho que terá a meio de Outubro e o amigável contra a França para trabalhar e ver em acção jogadores menos referenciados por Paulo Bento como são os casos de José Fonte, Orlando Sá, André André ou Ruben Ferreira. Pedro Tiba, João Mário, Miguel Rodrigues, Ricardo Horta, Ivan Cavaleiro ou Cedric também aparecem na pré-convocatória do novo seleccionador.

Fernando Santos poderá deslocar-se nos próximos dias a Madrid de forma a convencer Tiago a regressar à selecção nacional.

Crónica #10 – Celta 2-1 Deportivo

celta 2

23881 espectadores (estádio praticamente cheio) puderam assistir a uma interessante partida de futebol nos bonito estádio dos Balaídos em mais um clássico disputado entre as duas melhores equipas galegas. A vitória acabou por sorrir aos homens da casa por 2 bolas a uma no efervescente caldeirão da cidade de Vigo.

A equipa da casa, orientada pelo seu antigo jogador nos primeiros anos do século XXI Eduardo Berizzo, recentemente coroado campeão Chileno ao serviço do modesto O´Higgins, aproveitou o clássico galego para cimentar o excelente início de época que está a realizar com 2 vitórias e 3 empates. Já a equipa de Victor Fernandez, vinda de uma angustiante goleada por 2-8 no Riazor frente ao Real Madrid, numa exibição em que apenas fez valer como positiva a reacção tida nos primeiros 20 minutos da 2ª parte, não recuperou do penoso resultado de sábado e voltou a revelar muitas lacunas ao nível defensivo e ao nível dos processos ofensivos. Faltam mais elementos criativos à equipa da cidade da Corunha.

Celta: Sérgio Alvarez; Planas, Andreu Fontás, Gustavo Cabral, Hugo Mallo; Radoya,  Alex Lopez, Krohn-Deli, Fabián Orellana, Nolito, Joaquin Larrivey.

Deportivo: German Lux, Laure, Alberto Lopo, Sidnei, Luisinho; Alex Bergantinos, Medujanin, Isaac Cuenca, Juanfran, Luis Fariña e Hélder Postiga.

Victor Fernandez voltou a deixar Ivan Cavaleiro no banco, não obstante da agradavel segunda parte que o internacional português realizou ante o Real Madrid. Já outro português da equipa, Diogo Salomão, continua fora das contas do treinador que já orientou o FC Porto por lesão.

Uma entrada a todo o gás do Celta, explorando as fragilidades defensivas mais uma vez evidenciadas pela equipa da Corunha (Sidnei fez mais uma exibição intranquila, Luisinho voltou a ser muito permeável, Alberto Lopo foi muito combativo mas voltou a falhar nos momentos chave) fez toda a diferença perante uma amorfa equipa do Corunha que ao longo dos 90 minutos mostrou um deserto de ideias tremendo, falta de agressividade no sector intermédio, pouca pressão e um futebol algo desengonçado que não abona muito em favor de quem pretende manter-se no principal escalão do futebol espanhol.

Nos primeiros minutos a equipa do Celta começou por jogar para a sua principal estrela, o antigo jogador do Benfica Nolito. Pela ala esquerda do ataque da equipa de Berizzo, Nolito foi um autêntico diabo à solta. Apesar da equipa ter processos de construção de jogo muito simples e eficazes (tanto Alex Lopez como o dinamarquês Krohn-Deli usam e abusam de passes longos de flanco a flanco e de passes picados em desmarcação para as alas ou para Larrivey tentando colocar os visados à vontade nas costas dos defensores), sempre que a equipa galega precisa de ser eficaz, coloca a bola no seu extremo porque sabe que Nolito, através do seu fantástico drible, é um jogador capaz de sozinho criar as suas oportunidades de golo.

Foi precisamente isso que o antigo jogador do Benfica fez logo aos 4″ quando, solicitado com uma abertura na esquerda, entrou na área, trocou as voltas a Sidnei com um drible ziguezagueante e atirou a contar ao primeiro poste, aproveitando uma péssima colocação de German Lux na baliza.
Desde cedo, a equipa do Celta pressionou alto e impediu que a equipa do Deportivo tentasse responder. Sempre que um homem do deportivo recebia a bola no meio-campo contrário era logo importunado com um controle defensivo de um jogador do Celta. Hélder Postiga, por exemplo, sempre que vinha atrás receber jogo para tentar fugir à impiedosa marcação de Andreu Fontás, era sempre acompanhado pelo central formado nas escolas do Barcelona. Este usou e abusou do seu físico para desarmar várias vezes o internacional português, cometendo algumas faltas sobre o mesmo. No final da primeira parte, uma falta sobre Postiga valeu-lhe o amarelo e dois minutos depois, uma nova falta não assinalada pelo árbitro Del Cerro Grande deveria ter ditado a expulsão do central catalão. Voltando aos primeiros minutos…

Abusando da rapidez de processos de Alex Lopez (muito marcado por Alex Bergantinos, o melhor do Depor nos Balaídos) e pela fluidez e largura que tanto Krohn-Dehli como o sérvio Radoja davam ao jogo da equipa vestida de azul celeste, o jogo aplicado pelo Celta era uma delícia para os seus dois maiores criativos. Nolito pela esquerda e Fabián Orellana pela direita não se cansaram de tentar situações de drible de forma a conseguirem criar boas situações de golo para si ou para o avançado da equipa Joaquin Larrivey. O argentino contratado ao Rayo Vallecano foi, passe-se a expressão, um mouro de trabalho. Tanto para o seu marcador directo (Alberto Lopo) como fora-da-área.
Nolito continuou a espalhar o seu perfume. Aos 9″ rodopiou sobre dois jogadores e ofereceu um remate em zona frontal a Alex Lopez. Lux seguiria com os olhos uma bola que saíria por cima da sua baliza. Tanto em contra-ataque como em ataque organizado, o extremo deu uma enorme dinâmica ao ataque do Celta. Para além da dinâmica garantida, impediu que Laure, um lateral direito muito experiente, capitão desta equipa do Depor, que gosta muito de subir pelo flanco para cruzar, subisse no terreno. A sua constante presença no último terço no terreno e a ameaça que representou ao longo da primeira parte obrigou o lateral a não subir como gosta pelo flanco.

Para corroborar os processos ofensivos simples da equipa, aos 31″ em poucos toques foi criada uma situação de imenso perigo para a baliza de Lux: Gustavo Cabral (central com um recorte técnico apuradíssimo que nos últimos minutos cometeria uma grande penalidade) fez um passe de 50 metros para a esquerda para Nolito tocar de primeira para o centro para uma entrada de Orellana a rematar em arco com perigo para a baliza de Lux. O Chileno aproveitou imensas vezes o espaço concedido por Luisinho ora nas costas (espaço motivado pelo facto do lateral ser algo lento a recuperar do ataque) ora num confronto directo entre os dois jogadores para tentar servir Larrivey e Nolito da melhor maneira.

Nota de destaque nesta primeira parte também foi o duelo de Alex´s: Bergantiños do Depor com Lopez do Celta com o primeiro a levar quase sempre a melhor que o 2º. Bergantiños tentou inclusive dar alguma qualidade na organização de jogo da equipa, organização muito incipiente neste primeiro tempo. Victor Fernandez terá muito trabalho para conseguir meter esta equipa a jogar com algum critério.

Na 2ª parte, pedia-se que o Depor entrasse com uma atitude parecida aquela que entrou no jogo do passado sábado contra o Real Madrid. Nos primeiros 10 minutos, o Depor necessitou apenas de duas oportunidades para empatar a partida:
– aos 50″ Postiga, ligeiramente mais descaído para a direita, de costas para os adversários, recebeu uma bola de Laure, tocou-a novamente para o lateral que lançou imediatamente Juanfran na ala direita; o jogador do Bétis foi pelo flanco fora até cruzar para o coração da área onde apareceu o português a rematar fraco para defesa de Sérgio Alvarez.
– 4 minutos depois seria o português a iniciar a jogada que ditaria o golo do empate para a equipa visitante. Fintando um adversário na direita, tocou para a subida de Juanfran que, um pouco à semelhança do lance anterior, cruzou para a área para a entrada de Isaac Cuenca. O antigo jogador do Barcelona foi mais eficaz que o internacional português.

O Celta reagiu prontamente ao golo sofrido. Mais uma vez, Nolito recebeu na esquerda, tirou Bergantiños do caminho e atirou em arco para grande defesa de Germán Lux. 9 minutos depois seria Krohn-Deli a rematar à malha lateral de Lux. Do lado do Depor, com sucessivas incursões no flanco direito, Juanfran demonstrava-se o mais insatisfeito com o empate na equipa de Victor Fernandez.

Os treinadores decidiram naquele momento mexer na equipa: Berizzo tirou o decrescente Alex Lopez, colocando Augusto Fernandez no seu lugar. Fernandez respondeu de imediato com a entrada de Cavaleiro para o lugar do desinpirado Cuenca. Aproveitando ainda mais o jogo pelas alas, tanto por acções individuais de Nolito e Orellana como pela incursão dos laterais Planas e Mollo, os homens da casa haveriam de chegar ao golo num lance em que após Planas ter ganho um canto num duelo individual na linha de fundo com Juanfran, Nolito bateu o canto directamente para a pequena área onde apareceu Larrivey solto de qualquer marcação (falha dos centrais) a atirar para o 2-1 do Celta na partida.

Ligeiramente apagado na 2ª parte, Krohn-Deli decidiu dar um arzinho da sua graça. O adversário da selecção portuguesa na caminhada para o Euro 2016 decidiu tirar dois coelhos da sua extensa cartola para matar de vez a partida. No primeiro assistiu Orellana para mais um remate em arco que causou perigo à baliza de Lux; num segundo lance, desmarcou Joaquin Larrivey nas costas da defensiva do Depor com o argentino a não conseguir desfeitiar o seu compatriota Germán Lux com um chapéu que foi habilmente defendido pelo guarda-redes da equipa da Corunha.

Nos minutos finais, já mais com o coração do que com a razão, aparece o grande caso da 2ª parte. Subido no terreno quase em desespero aos 87″, Sidnei tabela na esquerda com Cavaleiro, vai receber ao jogador português, entra com o esférico na área, tenta o cruzamento e Gustavo Veloso, central do Celta até aquele momento imaculado na sua exibição tenta o carrinho e corta a bola com o braço. O árbitro da partida aponta imediatamente para a marca dos 11 metros onde, o canhoto Medujanin atira para o lado contrário para uma brilhante parada em voo de Sérgio Alvarez. Com a defesa ao penalty do Bósnio, antigo jogador do Gaziantespor da Turquia, o guarda-redes do Celta carimbou os 3 pontos, que, minutos mais tarde, já nos descontos, poderiam ter sido colocados em risco quando, para travar uma incursão de Ivan Cavaleiro na área, o lateral Hugo Mollo parou uma bola do português para executar a mudança de velocidade e incursão na área com uma palmada na bola. O lance motivou os protestos da turma de Fernandes. O árbitro da partida não assinalou a grande penalidade. Os galegos tem razões de queixa do árbitro Del Cerro Grande pelos dois erros graves cometidos no perdão do 2º amarelo a Fontás na primeira parte e no penalty não assinalado a Hugo Mollo.

 

 

Crónica #7 – Deportivo 2-8 Real Madrid

Cristiano Ronaldo, Karim Benzema e Gareth Bale destruiram a equipa galega. Não se pode dizer que este regresso do Real Madrid às goleadas foi um jogo de sentido único porque a equipa comandada por Victor Fernandez fez um jogo muito interessante do ponto de vista ofensivo. Defensivamente, esta equipa galega manifestou muitas dificuldades para pressionar o meio-campo do Real Madrid e conseguir defender as constantes movimentações outside e inside dos 3 da frente.

No Riazor, o Deportivo procurava dar seguimento à vitória obtida no passado fim-de-semana frente ao também recém-promovido Eibar. Já a equipa de Carlo Ancelotti, apesar de ter vencido o Basileia por 5-1 para a 1ª jornada da Champions, tentava recuperar na Corunha de duas derrotas estrondosas para a Liga (4-2 no Anoeta frente à Real Sociedad e 1-2 no Bernabeu frente aos rivais de Madrid).
Com Pepe lesionado, Carlo Ancelotti deu a titularidade ao francês Varane no eixo da defesa. Na direita da defesa, o jovem Nacho (realizou uma partida muito interessante contra o Basileia) voltou a ser rendido pelo habitual suplente para a posição (Alvaro Arbeloa). Na esquerda da defesa, o técnico italiano voltou a apostar na titularidade de Marcelo em detrimento de Fábio Coentrão que ficou no banco dos merengues.
Já Luis Fernandez apostou num onze que anda muito próximo do seu onze-base: o argentino German Lux na baliza, uma defesa composta pelo capitão Laure, pelos centrais Sidnei (emprestado pelo Benfica) e Diakité e pelo lateral-esquerdo (também ele ex-benfica) Luisinho. No meio-campo Fernandez fez alinhar o técnico bósnio Medujanin juntamente com Alex, Juanfran na direita, o antigo jogador do Barcelona Isaac Cuenca na esquerda e Luis Fariña numa posição mais avançada no terreno no apoio directo a Hélder Postiga.

O Deportivo iniciou a partida com uma abordagem muito ofensiva que se traduziu num futebol altamente flanqueado. A equipa galega depositou a bola nos seus desequilibradores nas alas, assistindo-se a bastantes cruzamentos para a área à procura do toque final de Hélder Postiga por parte do lateral Laure (na direita) ou à tentativa de acções individuais de Cuenca na esquerda. O capitão da equipa galega e o antigo jogador do Barcelona foram efectivamente os melhores em campo no que à turma galega diz respeito, apesar do catalão ter-se evidenciado demasiado individualista nas acções de 1×1 e 1 para 2 que tentou realizar várias vezes no flanco esquerdo.

Depois do arranque interessante da turma galega, Luca Modric pegou no jogo do Real. Em grande forma nas últimas semanas, o croata pegou na batuta da equipa e começou a organizar (com os seus passes a rasgar) o jogo ofensivo dos merengues. As ocasiões de golo começaram a suceder-se:
– Com muito espaço para jogar no seu flanco (Bale foi um autêntico terror para Luisinho), aos 11″, o internacional galês tirou o português do caminho e centrou para um cabeceamento de Ronaldo (solto da marcação de Sidnei; o antigo central do Benfica nunca acertou com a marcação ao português ou ao galês Bale sempre que este apareceu nas imediações da área; prova disso foram os dois golos obtidos pelo galês na partida) para uma defesa fácil de Lux.- Iniciando um processo de construção recheado de tabelas a meio-campo e tabelas à entrada da área com a devida envolvência de Karim Benzema (ao vir buscar jogo à entrada da área arrastou consigo os centrais e abriu espaços para a entrada de Ronaldo ou Bale) perante um Deportivo que fez povoar muita gente à entrada da área em zona central, mas, que no fundo foi uma equipa pouco pressionante no primeiro-tempo, aos 15″, o francês veio buscar uma bola fora da área, rodou sobre vários adversários, entrou na caixa e desmarcou Gareth Bale na direita com o Galês a rematar para defesa de German Lux que, neste lance em específico, revelou muita coragem na saída realizada aos pés do galês.
– Aos 19″, depois de Cuenca não ter dado melhor seguimento à tentativa de marcação de um canto curto, James Rodriguez recuperou o esférico, lançou em contra-ataque pela esquerda Luca Modric, que por sua vez, depois de passar em slalom por dois adversários, abriu o jogo para a direita, encontrando Ronaldo. Sem pressão imediata por parte de Luisinho ou Alex, o português teve todo o tempo do mundo para receber a bola e ensaiar o seu poderoso remate que haveria de sair ao lado da baliza de Lux.

O primeiro golo do Real avizinhava-se perante uma equipa da Corunha que tinha em Medujanin o verdadeiro patrão do meio-campo e em Cuenca o criativo. No entanto, defensivamente, a equipa da Corunha foi extremamente permeável pelo trio de ataque da equipa madrilena na medida em que a mobilidade do trio da frente da equipa (mais James) fez com que a equipa de Fernandez não acertasse com as marcações.
Este primeiro golo viria aos 28″ quando Arbeloa cruzou da direita para uma fantástica impulsão de Cristiano Ronaldo e um cabeceamento em arco perfeito que Lux jamais conseguiria defender. Se os gestos físico e técnico (impulsão e cabeceamento) do português foram absolutamente formidáveis (inacessíveis a grande parte dos avançados mundiais), posso também afirmar que este golo só aconteceu porque Sidnei deixou completamente solto o português e chegou bastante tarde ao lance.

Benzema continuou a ir buscar muito jogo fora da área. Aos 31″ voltou a vir buscar jogo a Modric fora, para depois efectuar um remate rasteiro para defesa fácil de Lux. Aos 35″ foi ao flanco esquerdo construir o lance do 2º golo madrileno. Com um gesto simples, passou a bola para James numa posição mais interior à entrada da área e o colombiano num remate em arco (perfeito) colocou a bola no canto superior direito da baliza de German Lux. O argentino limitou-se a olhar para o redondo arco que o craque colombiano colocou naquele remate que deu o 0-2 para a equipa de Carlo Ancelotti.

A equipa galega perdeu o norte e passados 6 minutos haveria de sofrer o 3º golo (novamente em contra-ataque) numa parvoíce pegada de toda a defensiva galega (German Lux sai antecipadamente ao lance e comete falta; lei da vantagem bem assinalada por Perez Montero) permitindo o bis a Ronaldo.

Ao intervalo, a vantagem de 3 golos do Real e avizinhava uma 2ª parte minimamente tranquila em que a turma de Ancelotti poderia gerir o jogo a seu belo prazer e gerir o esforço. Porém, os galegos queriam dar uma melhor imagem do que aquela que foi dada no primeiro tempo.

Luis Fernandez iniciou o segundo tempo com uma alteração. Ivan Cavaleiro entrou para o lugar do “ausente” Postiga. Assentes na distribuição de jogo do bósnio Medujanin e nos desequilíbrios que Cuenca tentava dar à equipa através das suas acções individuais em drible nas alas, o Depor deu bastante alento à sua fiel massa adepta (no final da partida todo o Riazor aplaudiu de pé os seus jogadores) entrando a todo o gás no 2º tempo.

Cientes que já tinham perdido o jogo, os galegos arriscaram no ataque, aos 49″ Luisinho subiu pela esquerda e centrou para Cuenca cabecear contra Sérgio Ramos. Perez Montero considerou que o central cortou a bola com o braço, apesar do lance ser duvidoso, e assinalou prontamente uma grande penalidade que Medujanin converteu para 1-3. Os galegos acreditaram que podiam tirar mais proveito do jogo: dois minutos depois Isaac cuenca trabalhou na direita e rematou para defesa incompleta de Casillas para os pés de Cavaleiro. O português foi lesto a atirar a contar, deixando Casillas emendar o erro cometido com uma palmada que impediu o jogador emprestado pelo Benfica à equipa galega de fazer o 2-3.
Aos 56″, Casillas defendeu um remate frouxo de Luis Fariña. Dois minutos depois, num simples e rápido lance em contra-golpe no qual o ataque do Depor fez rodar o esférico do centro para o flanco direito e do flanco direito para Ivan Cavaleiro na esquerda com um passe longo, o português teve espaço para ensaiar o remate fazendo um remate em arco por cima da baliza do internacional espanhol.

As constantes ameaças dos galegos à equipa de Casillas levaram Carlo Ancelotti a refrescar o meio-campo com a entrada de Isco e Illarramendi (Modric perdeu o meio-campo quando sobressaiu Medujanin) e o ataque com a estreia de Chicarito Hernandez na Liga Espanhola. O Real voltou a ganhar o meio-campo e a partir dessa base construiu com um futebol esteticamente bonito a sua goleada triunfal:
– Aos 65″ Marcelo tirou da cartola um incrível passe em desmarcação para a área a rasgar para a entrada de Bale que atirou para o fundo das redes de Lux com a bola a entrar caprichosamente depois de ter tocado no poste direito da baliza do Depor.
– Numa jogada tirada a papel químico (só mudou o autor da assistência e o tipo de finalização executada pelo galês), Isco solicitou Bale com um passe semelhante aquele que foi realizado por Marcelo minutos antes com o galês a apostar desta vez com um remate picado por cima de Lux. Mais uma vez Sidnei e Diakité ficaram pregados ao solo aquando da desmarcação do galês.

Para fechar a contagem Sidnei cometeu um erro proibido em zona defensiva que permitiu o hat-trick a Ronaldo (1-6) e Chicarito (aquele que era conhecido em Manchester por aparecer muito bem ao 2º poste a finalizar jogadas de ataque dos Red Devils) mostrou que também é um jogador capaz de rematar de meia distância, marcando 2 golos de belíssimo efeito. Pelo meio aos 83″, Verdu fez o 2º golo para os galegos num jogo em que pelo que a equipa galega fez ofensivamente não merecia ter saído com tamanha goleada. A equipa do Real demonstrou uma eficácia quase perfeita na hora de atirar à baliza, materializando em golo praticamente todas as ocasiões que teve ao longo dos 90″ Defensivamente, esta equipa do Corunha tem muito trabalho pela frente para não sofrer mais dissabores no decurso desta temporada. Com dois centrais que demonstraram ter imensas dificuldades na marcação frente a equipas que optem por jogar com 2 pontas-de-lança ou com a incursão de um 2º jogador na área, com um lateral esquerdo que é muito permeável defensivamente e com um meio-campo que é capaz de organizar e criar mas mostra-se incapaz de pressionar, Fernandez terá que rectificar alguns destes pontos para poder alcançar o objectivo principal da histórica equipa galega, agora presidida por uma junta de salvação constituída por adeptos após a destituição da presidência do também ele histórico Augusto César Lendoiro no ano passado.

 

Crónica #2 – Portugal vs Albânia – Crónica de uma incompetência anunciada

nani

Um dejá vu… Aquela situação anteriormente vista. Aquela estreia sofrida contra uma equipa secundária que redunda num empate… ou numa derrota escandalosa. Os albaneses conseguiram hoje em Aveiro a sua 4ª vitória em rondas de apuramento para uma grande prova internacional. Depois de terem vencido grandes selecções europeias como a Macedónia, o Casaquistão ou a Noruega, a Albânia bate fora a selecção Portuguesa. E a incompetência apregoada pelo líder federativo como explicação do fracasso luso em terras brasileiras estendeu-se desde terras de vera cruz para cá.

Exibição desinpiradíssima de uma equipa que entrou sem dinâmica (o conceito de dinâmica apenas se aplica no primeiro tempo às combinações elaboradas por Nani e João Moutinho no flanco direito; os dois foram os únicos que conseguiram ter a lucidez necessária para tocar o andor para a frente), sem fio-de-jogo (como é que esta equipa poderia ter fio-de-jogo se nunca o teve?; se considerarmos que o único fio-de-jogo da equipa é levar a bola até aos corredores, o lateral e o extremo combinarem entre si e um deles cruzar, sim, esse é o fio-de-jogo da selecção na era Paulo Bento) e acima de tudo sem ideias para dar a volta quando se encontrava a perder.

As oportunidades foram muitas: duas cabeçadas de Ricardo Costa, uma de Pepe a livre de Nani ao lado, um remate de Nani à entrada da área bloqueado por um defesa albanês, um remate em arco de Ricardo Horta na 2ª parte à trave seguida de um autêntico penaste de Pepe por cima da baliza quando o central tinha tempo para dominar e fazer melhor; dois remates de Coentrão da esquerda: um ao lado, outro para Berisha fazer uma defesa para a fotografia).

Não se pode dizer que a Albânia tivesse chegado ao Municipal de Aveiro com a lição estudada. Pouco ou nada se viu desta selecção de leste. Na primeira parte aproveitaram a falta de dinâmica da selecção assim como a escassez de ideias, limitando-se a defender com bastante agressividade (agressividade a mais em alguns momentos do jogo) com uma defesa baixa, onde sobressaiu a marcação individual a meio-campo a João Moutinho. Com um meio-campo e um ataque estático, em muitas ocasiões do jogo, o médio do Mónaco, a passar ao lado de uma grande carreira no clube monegasco, olhava para os colegas mas não tinha linhas de passe. Existiram momentos de jogo em que estavam 5 jogadores nacionais escondidos atrás da linha média dos albaneses, à espera que Moutinho sacasse de um lance que lhes permitisse receber a bola à entrada da área. Depois de uma primeira parte desinspirada, os albaneses acreditaram que poderiam levar mais que um ponto do Municipal de Aveiro e, na única jogada com cabeça tronco e membros, João Pereira facilitou o cruzamento no flanco direito e Pepe, igual a si próprio, a 5 metros do seu marcado directo, deixou o avançado albanês fazer o único golo da partida.

Bento mudou. Tirou William Carvalho (lento de movimentos; interessante na primeira fase de organização de jogo; extremamente permeável do ponto de vista defensivo como de resto viria a verificar-se aos 42″ quando um jogador albanês irrompeu pela área e o trinco do Sporting limitou-se a deixá-lo passar para a linha de fundo, num lance onde felizmente não existiram consequências de maior) e colocou em campo Ricardo Horta. Antes já tinha substituído o queixoso Vieirinha (exibição apagadíssima do extremo do Wolfsburgo durante a primeira parte) para colocar em campo um “inútil” Cavaleiro que mal se viu no 2º tempo, excepto num lance em que quis fintar tudo e todos e levar a bola para casa, deixando-a sair pela linha de fundo. O extremo do Malaga ainda tentou dar alguma dinâmica ao jogo e, poucos minutos depois da sua entrada no rectângulo de jogo sacou do lance mais prodigioso da turma das quintas no inferno de Aveiro, atirando a bola à trave num remate em arco.

A incompetência manteve-se.

Assim como o fio-de-jogo (ou a falta dele) de Paulo Bento. Durante os 90 minutos, os portugueses voltaram a insistir no típico “bola para as alas, combinação entre alas e cruzamento” – este estilo de jogo resulta quando na área se tem um avançado mortífero. Éder não é esse avançado mortífero. Ou pelo menos só o demonstra ser em Braga. A bom da verdade, Éder nem sequer é ponta-de-lança para este estilo de jogo. Sendo um jogador de área (preferencialmente de um toque), não podemos ter lá um ponta-de-lança “só porque sim ou só porque não existe melhor” – Éder não é jogador para vir atrás buscar bola e participar no processo de construção de jogo porque não é um jogador dotado tecnicamente o suficiente para sair da área (e arrastar o seu marcador directo, construído um espaço que deveria obrigatoriamente ser aproveitado por alguém da linha média capaz de aparecer a finalizar) e dar de primeira para as alas de forma a conseguir baralhar as marcações e abrir esse mesmo espaço para a entrada de um 2º jogador. Para além disso, Éder não pode de maneira alguma fazer 2 faltas sobre o central adversário a cada 3 bolas bombeadas para a área ou ser, como o foi hoje, demasiado lesto no ataque às bolas que cruzaram a área e no remate, como o foi numa bola que lhe apareceu na zona de penalty à qual não conseguiu rematar, limitando-se a esperar que o jogador albanês, fortuitamente, o carregasse dentro da área.

Quanto a André Gomes, penso que foi tirada a prova dos 9: o jogador do Valência não joga nada. Não acrescenta nada à equipa. Todos os processos que executa estão carregados de uma lentidão tamanha, convidativa a que a outra equipa se sente numa cadeirinha e espere o previsível passe que o antigo médio do Benfica venha a executar.

Para terminar, destaque para a péssima arbitragem de Ruddy Bouquet. O francês nomeado pela UEFA para esta partida esteve muito mal no capítulo técnico disciplinar. Na primeira parte deixou os albaneses distribuir pancada a gosto. 2 das entradas mais ríspidas (uma sobre Coentrão e outra soube Moutinho roçaram claramente o vermelho directo). Nessa mesma altura deixou o guardião Berisha demorar uma eternidade para bater os pontapés de baliza. Na 2ª parte não viu uma falta descarada sobre Nani e uma grande penalidade sobre Pepe. Contudo, a péssima arbitragem do francês não apaga a péssima exibição portuguesa na partida desta noite.

Já diz o ditado antigo que “não basta parecer a mulher de César, é preciso sê-la” – este velho provérbio de origem Romana encaixa que nem uma luva para o presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Os problemas de fundo do futebol português que foram amplamente debelados após a eliminação do mundial não podem ser resolvidos com paninhos quentes. Não se pode atirar areia para os olhos na admissão de incompetência de toda a comitiva se as estruturas não forem radicalmente abaladas. As mudanças elaboradas no seio das selecções, em específico, da selecção sénior acabaram por provar que se calhar os únicos incompetentes foram os anteriores médicos da mesma. Ou somos todos incompetentes e damos lugar a quem seja mais competente que nós, ou então, à boa moda portuguesa, enterra-se a viola no saco, assobia-se ao ar e, como dizem nuestros hermanos espanhóis “no pasa nada” – Fernando Gomes optou pelo 2º modelo de conduta e poderá estar acometido a morrer pela boca como o peixe.

P.S: Não se esperem facilidades nos próximos jogos. A Arménia esteve muito perto de tirar dividendos da visita a Copenhaga, tendo estado a vencer por 0-1. Os dinamarqueses viraram o resultado para 2-1 no 2º tempo mas os armenios deram um alerta: estão no Grupo I para lutar pelas vagas que dão apuramento directo. Se esta Albânia, uma equipa sem disciplina táctica e sem jogadores tecnicamente dotados, conseguiu vir buscar 3 pontos a Aveiro, os Armenos, 100 vezes maisn disciplinados tacticamente e capacitados tecnicamente poderão vir a Portugal fazer o mesmo.