Momentos #28

Naquele momento em que Silvestre Varela encheu o pé com convicção e deu uma nova vida à nossa Selecção na campanha disputada na Polónia e Ucrânia.

Os dinamarqueses já nos tinham vencido em Copenhaga na última jornada da ronda de qualificação, atirando-nos para um playoff que seria disputado frente à Bósnia (também em virtude da vitória obtida pelos suecos naquele preciso dia frente à Selecção Holandesa, resultado que permitiu à turma nórdica arrebatar a posição de 2º melhor classificado de todos os grupos de qualificação). Em Lviv, os comandados de Morten Olsen estiveram a um passo de nos eliminar do Europeu, num jogo em que a nossa selecção entrou muito bem na partida com 2 golos no primeiro tempo (Pepe e Postiga) mas viria a permitir que Niklas Bendtner complicasse as coisas com dois golos ao minuto 41 e 80.

Vindo do banco aos 84″ num autêntico acto de desespero de Paulo Bento (o seleccionador trocou Meireles por Varela, passando a jogar num 4x2x4 com uma frente de ataque alargada – Varela, Postiga, Nelson Oliveira, Cristiano Ronaldo – numa altura em que os dinamarqueses poderiam ter chegado facilmente ao golo da vitória), o então jogador do Porto (agora por empréstimo aos ingleses do WBA; não convocado por Fernando Santos para este duplo compromisso) fez o 3-2 que nos permitiria sonhar com a qualificação frente à Holanda na derradeira partida do grupo.

Passados 2 anos, não tenho dúvidas em afirmar que este golo de Silvestre Varela é um dos golos mais importantes da história do nosso futebol.

A remodelação de Santos

Não me chocou nadinha a remodelação pincelada pelo novo seleccionador nesta primeira fase de chamadas. Não considero que o novo seleccionador tenha revolucionado ou renovado o quer que seja com a inclusão de jogadores que neste momento acrescentam experiência (a média de idades dos convocáveis até subiu quase 2 anos para os 29) e qualidade (derivado da forma que alguns atravessam nos seus clubes, caso de José Fonte, Ricardo Carvalho ou Tiago). O momento é duro e obriga a selecção a uma resposta fortíssima contra a França e contra a Dinamarca. Se o primeiro, amigável, servirá para Fernando Santos testar o lado esquerdo da defesa (Antunes e Eliseu deverão jogar meio tempo cada um; pessoalmente prefiro a regularidade de processos do jogador do Málaga à instabilidade defensiva e dificuldade que o jogador do Benfica tem nos processos defensivos, em específico na defesa 1×1 e no posicionamento; jogar para as costas de Eliseu parece tarefa fácil para qualquer flanco direito adversário da equipa de Jorge Jesus), experimentar tacticamente os re-seleccionados e dar minutos internacionais a jovens que indiscutivelmente irão ganhar o seu espaço nos convocados, casos de André Gomes, Ivo Pinto e João Mário, o segundo, a doer, obriga, pela obrigação de nos qualificarmos para o Europeu, a um tratamento de choque que só pode ser realizado por quem neste momento tem a experiência e a forma necessária para enfrentar este tipo de desafios. Danny, Quaresma, Tiago e Carvalho são jogadores habituadíssimos a lidar com esse tipo de pressão e tem todas as condições no momento para cumprir os objectivos que (volto a considerar) obrigatórios para uma selecção do nosso nível.

Quanto aos que ficaram de fora: Não tenho uma única crítica a fazer contra o seleccionador nacional. Saíram todos aqueles que estão a mais (só Paulo Bento é que continuava a chover no molhado) e aqueles que para já, não tem neste de perto nem de longe o estatuto de seleccionáveis para a AA, casos de Cavaleiro, Ricardo Horta. Juntando a estes, Ruben Vezo também foi preterido por causa dos compromissos da selecção de sub-21 (playoff de apuramento para o Europeu do escalão frente à Holanda. Se os dois primeiros não tem espaço nesta selecção, assim como Pedro Tiba (claramente a 6ª opção para a posição depois de Adrien, João Mário, Moutinho, André Gomes e Raúl Meireles), já Ruben Vezo tem lugar nesta equipa pelas exibições de altíssimo nível que tem realizado em Valência e pelo facto de Pepe e Ricardo Carvalho estarem bastante perto do adeus à selecção (o primeiro poderá renunciar em 2016, o segundo pode nem sequer jogar esse Europeu caso seja novamente achatado a lesões).

Crónica #7 – Deportivo 2-8 Real Madrid

Cristiano Ronaldo, Karim Benzema e Gareth Bale destruiram a equipa galega. Não se pode dizer que este regresso do Real Madrid às goleadas foi um jogo de sentido único porque a equipa comandada por Victor Fernandez fez um jogo muito interessante do ponto de vista ofensivo. Defensivamente, esta equipa galega manifestou muitas dificuldades para pressionar o meio-campo do Real Madrid e conseguir defender as constantes movimentações outside e inside dos 3 da frente.

No Riazor, o Deportivo procurava dar seguimento à vitória obtida no passado fim-de-semana frente ao também recém-promovido Eibar. Já a equipa de Carlo Ancelotti, apesar de ter vencido o Basileia por 5-1 para a 1ª jornada da Champions, tentava recuperar na Corunha de duas derrotas estrondosas para a Liga (4-2 no Anoeta frente à Real Sociedad e 1-2 no Bernabeu frente aos rivais de Madrid).
Com Pepe lesionado, Carlo Ancelotti deu a titularidade ao francês Varane no eixo da defesa. Na direita da defesa, o jovem Nacho (realizou uma partida muito interessante contra o Basileia) voltou a ser rendido pelo habitual suplente para a posição (Alvaro Arbeloa). Na esquerda da defesa, o técnico italiano voltou a apostar na titularidade de Marcelo em detrimento de Fábio Coentrão que ficou no banco dos merengues.
Já Luis Fernandez apostou num onze que anda muito próximo do seu onze-base: o argentino German Lux na baliza, uma defesa composta pelo capitão Laure, pelos centrais Sidnei (emprestado pelo Benfica) e Diakité e pelo lateral-esquerdo (também ele ex-benfica) Luisinho. No meio-campo Fernandez fez alinhar o técnico bósnio Medujanin juntamente com Alex, Juanfran na direita, o antigo jogador do Barcelona Isaac Cuenca na esquerda e Luis Fariña numa posição mais avançada no terreno no apoio directo a Hélder Postiga.

O Deportivo iniciou a partida com uma abordagem muito ofensiva que se traduziu num futebol altamente flanqueado. A equipa galega depositou a bola nos seus desequilibradores nas alas, assistindo-se a bastantes cruzamentos para a área à procura do toque final de Hélder Postiga por parte do lateral Laure (na direita) ou à tentativa de acções individuais de Cuenca na esquerda. O capitão da equipa galega e o antigo jogador do Barcelona foram efectivamente os melhores em campo no que à turma galega diz respeito, apesar do catalão ter-se evidenciado demasiado individualista nas acções de 1×1 e 1 para 2 que tentou realizar várias vezes no flanco esquerdo.

Depois do arranque interessante da turma galega, Luca Modric pegou no jogo do Real. Em grande forma nas últimas semanas, o croata pegou na batuta da equipa e começou a organizar (com os seus passes a rasgar) o jogo ofensivo dos merengues. As ocasiões de golo começaram a suceder-se:
– Com muito espaço para jogar no seu flanco (Bale foi um autêntico terror para Luisinho), aos 11″, o internacional galês tirou o português do caminho e centrou para um cabeceamento de Ronaldo (solto da marcação de Sidnei; o antigo central do Benfica nunca acertou com a marcação ao português ou ao galês Bale sempre que este apareceu nas imediações da área; prova disso foram os dois golos obtidos pelo galês na partida) para uma defesa fácil de Lux.- Iniciando um processo de construção recheado de tabelas a meio-campo e tabelas à entrada da área com a devida envolvência de Karim Benzema (ao vir buscar jogo à entrada da área arrastou consigo os centrais e abriu espaços para a entrada de Ronaldo ou Bale) perante um Deportivo que fez povoar muita gente à entrada da área em zona central, mas, que no fundo foi uma equipa pouco pressionante no primeiro-tempo, aos 15″, o francês veio buscar uma bola fora da área, rodou sobre vários adversários, entrou na caixa e desmarcou Gareth Bale na direita com o Galês a rematar para defesa de German Lux que, neste lance em específico, revelou muita coragem na saída realizada aos pés do galês.
– Aos 19″, depois de Cuenca não ter dado melhor seguimento à tentativa de marcação de um canto curto, James Rodriguez recuperou o esférico, lançou em contra-ataque pela esquerda Luca Modric, que por sua vez, depois de passar em slalom por dois adversários, abriu o jogo para a direita, encontrando Ronaldo. Sem pressão imediata por parte de Luisinho ou Alex, o português teve todo o tempo do mundo para receber a bola e ensaiar o seu poderoso remate que haveria de sair ao lado da baliza de Lux.

O primeiro golo do Real avizinhava-se perante uma equipa da Corunha que tinha em Medujanin o verdadeiro patrão do meio-campo e em Cuenca o criativo. No entanto, defensivamente, a equipa da Corunha foi extremamente permeável pelo trio de ataque da equipa madrilena na medida em que a mobilidade do trio da frente da equipa (mais James) fez com que a equipa de Fernandez não acertasse com as marcações.
Este primeiro golo viria aos 28″ quando Arbeloa cruzou da direita para uma fantástica impulsão de Cristiano Ronaldo e um cabeceamento em arco perfeito que Lux jamais conseguiria defender. Se os gestos físico e técnico (impulsão e cabeceamento) do português foram absolutamente formidáveis (inacessíveis a grande parte dos avançados mundiais), posso também afirmar que este golo só aconteceu porque Sidnei deixou completamente solto o português e chegou bastante tarde ao lance.

Benzema continuou a ir buscar muito jogo fora da área. Aos 31″ voltou a vir buscar jogo a Modric fora, para depois efectuar um remate rasteiro para defesa fácil de Lux. Aos 35″ foi ao flanco esquerdo construir o lance do 2º golo madrileno. Com um gesto simples, passou a bola para James numa posição mais interior à entrada da área e o colombiano num remate em arco (perfeito) colocou a bola no canto superior direito da baliza de German Lux. O argentino limitou-se a olhar para o redondo arco que o craque colombiano colocou naquele remate que deu o 0-2 para a equipa de Carlo Ancelotti.

A equipa galega perdeu o norte e passados 6 minutos haveria de sofrer o 3º golo (novamente em contra-ataque) numa parvoíce pegada de toda a defensiva galega (German Lux sai antecipadamente ao lance e comete falta; lei da vantagem bem assinalada por Perez Montero) permitindo o bis a Ronaldo.

Ao intervalo, a vantagem de 3 golos do Real e avizinhava uma 2ª parte minimamente tranquila em que a turma de Ancelotti poderia gerir o jogo a seu belo prazer e gerir o esforço. Porém, os galegos queriam dar uma melhor imagem do que aquela que foi dada no primeiro tempo.

Luis Fernandez iniciou o segundo tempo com uma alteração. Ivan Cavaleiro entrou para o lugar do “ausente” Postiga. Assentes na distribuição de jogo do bósnio Medujanin e nos desequilíbrios que Cuenca tentava dar à equipa através das suas acções individuais em drible nas alas, o Depor deu bastante alento à sua fiel massa adepta (no final da partida todo o Riazor aplaudiu de pé os seus jogadores) entrando a todo o gás no 2º tempo.

Cientes que já tinham perdido o jogo, os galegos arriscaram no ataque, aos 49″ Luisinho subiu pela esquerda e centrou para Cuenca cabecear contra Sérgio Ramos. Perez Montero considerou que o central cortou a bola com o braço, apesar do lance ser duvidoso, e assinalou prontamente uma grande penalidade que Medujanin converteu para 1-3. Os galegos acreditaram que podiam tirar mais proveito do jogo: dois minutos depois Isaac cuenca trabalhou na direita e rematou para defesa incompleta de Casillas para os pés de Cavaleiro. O português foi lesto a atirar a contar, deixando Casillas emendar o erro cometido com uma palmada que impediu o jogador emprestado pelo Benfica à equipa galega de fazer o 2-3.
Aos 56″, Casillas defendeu um remate frouxo de Luis Fariña. Dois minutos depois, num simples e rápido lance em contra-golpe no qual o ataque do Depor fez rodar o esférico do centro para o flanco direito e do flanco direito para Ivan Cavaleiro na esquerda com um passe longo, o português teve espaço para ensaiar o remate fazendo um remate em arco por cima da baliza do internacional espanhol.

As constantes ameaças dos galegos à equipa de Casillas levaram Carlo Ancelotti a refrescar o meio-campo com a entrada de Isco e Illarramendi (Modric perdeu o meio-campo quando sobressaiu Medujanin) e o ataque com a estreia de Chicarito Hernandez na Liga Espanhola. O Real voltou a ganhar o meio-campo e a partir dessa base construiu com um futebol esteticamente bonito a sua goleada triunfal:
– Aos 65″ Marcelo tirou da cartola um incrível passe em desmarcação para a área a rasgar para a entrada de Bale que atirou para o fundo das redes de Lux com a bola a entrar caprichosamente depois de ter tocado no poste direito da baliza do Depor.
– Numa jogada tirada a papel químico (só mudou o autor da assistência e o tipo de finalização executada pelo galês), Isco solicitou Bale com um passe semelhante aquele que foi realizado por Marcelo minutos antes com o galês a apostar desta vez com um remate picado por cima de Lux. Mais uma vez Sidnei e Diakité ficaram pregados ao solo aquando da desmarcação do galês.

Para fechar a contagem Sidnei cometeu um erro proibido em zona defensiva que permitiu o hat-trick a Ronaldo (1-6) e Chicarito (aquele que era conhecido em Manchester por aparecer muito bem ao 2º poste a finalizar jogadas de ataque dos Red Devils) mostrou que também é um jogador capaz de rematar de meia distância, marcando 2 golos de belíssimo efeito. Pelo meio aos 83″, Verdu fez o 2º golo para os galegos num jogo em que pelo que a equipa galega fez ofensivamente não merecia ter saído com tamanha goleada. A equipa do Real demonstrou uma eficácia quase perfeita na hora de atirar à baliza, materializando em golo praticamente todas as ocasiões que teve ao longo dos 90″ Defensivamente, esta equipa do Corunha tem muito trabalho pela frente para não sofrer mais dissabores no decurso desta temporada. Com dois centrais que demonstraram ter imensas dificuldades na marcação frente a equipas que optem por jogar com 2 pontas-de-lança ou com a incursão de um 2º jogador na área, com um lateral esquerdo que é muito permeável defensivamente e com um meio-campo que é capaz de organizar e criar mas mostra-se incapaz de pressionar, Fernandez terá que rectificar alguns destes pontos para poder alcançar o objectivo principal da histórica equipa galega, agora presidida por uma junta de salvação constituída por adeptos após a destituição da presidência do também ele histórico Augusto César Lendoiro no ano passado.

 

Crónica #4 – Champions League – Real Madrid 5-1 Basileia

Os merengues entraram com o pé direito na defesa do título europeu conquistado na temporada passada com uma goleada de 5-1, executada sobre a frágil equipa do Basileia orientada pelo português Paulo Sousa. O técnico português, por duas vezes vencedor da competição, uma pela Juventus em 1996 e outra no ano seguinte pelo Borussia de Dortmund, estreou-se na competição enquanto treinador. Pode-se dizer que foi uma estreia que o português decerto nunca se irá esquecer.

Na conferência de imprensa de antevisão da partida, dadas as duas derrotas somadas pelo Real Madrid nas últimas partidas disputadas frente a Real Sociedad (4-2 no Anoeta em San Sebastian) e Atlético de Madrid (no sábado no Bernabeu por 1-2), o italiano Ancelotti tentou aplacar a fúria dos adeptos (na segunda-feira dezenas de adeptos do clube fizeram uma espera aos jogadores à saida do Centro de estágios do clube em Valdebas; Toni Kroos e Iker Casillas foram insultados por alguns adeptos enquanto Gareth Bale viu dois adeptos pontapear-lhe o carro) e moralizar a sua equipa, afirmando que o jogo contra o Basileia poderia servir de ânimo para os seus artistas modificarem o rumo dos acontecimentos e inverterem os resultados negativos e a instabilidade que tem cirandado sobre o balneário da equipa após as polémicas declarações de Cristiano Ronaldo acerca da política de transferências levada a cabo pela direcção liderada por Florentino Perez.

Neste primeiro teste na Champions, o Real tinha como adversário o campeão suiço, o Basel FC, equipa que tem passado as últimas temporadas em clara ascenção no futebol europeu. Há 3 anos, esta equipa suiça, eliminou o Manchester United de Sir. Alex Ferguson na fase-de-grupos da prova (num grupo onde também estava o Benfica) e no ano passado, a equipa suiça logrou vencer em Stamford Bridge por 2-1, num jogo onde Mohammed Salah haveria de confirmar a sua transferência para o Chelsea (consumada pelo maravilhado José Mourinho em Janeiro). A equipa suiça tem aproveitado a Champions para valorizar bastantes activos (já lucrou mais de 70 milhões de euros com as vendas de Xherdan Shaqiri ao Bayern, Granit Xhaka ao Borussia de Moenchagladbach, Mohammed Salah ao Chelsea, Aleksandr Dragovic ou Valentin Stocker ao Hertha de Berlim). Para isso muito contribuiu também o trabalho realizado por antigo internacional suiço Murat Yakin (irmão do histórico jogador do clube Hakan Yakin) no comando técnico do clube.

Acossado pela imprensa espanhola, bastante crítica na forma em como o italiano descompensa as alas com as ausências de Bale e Ronaldo nas tarefas defensivas (como não descem, o lateral fica por norma a defender em inferioridade numérica; nem sempre Kroos ou Modric compensam porque tem jogado em inferioridade no meio-campo contra todos os adversários), o italiano decidiu promover duas alterações para a partida, fazendo entre o jovem Nacho Gonzalez e Marcelo para os lugares de Alvaro Arbeloa e Fábio Coentrão.
Na equipa de Paulo Sousa, o português abordou a partida assente num interessante 3x4x2x1 constituído por 3 centrais fixos (Schar, o veteraníssimo Walter Samuel e o checo Suchy), 2 alas (Behrang Safari à esquerda e o albanês Taulant Xhaka à direita, irmão de Granit Xhaka), 2 centrocampistas (Elnessy e Fabian Frei), 2 médios de índole ofensiva (Zuffi e o paraguaio Derlis Gonzalez, jogador que o Benfica foi buscar há uns anos ao paraguai) no apoio ao fixo Marco Streller.

Nos primeiros minutos da partida, num ritmo de jogo bastante sereno, o Basileia tentou aproveitar as dificuldades que este Real manifesta no jogo interior (DiMaria faz tanta falta neste meio-campo) para defender de forma muito organizada (povoando bem o meio-campo, Paulo Sousa colocou 4 contra Modric e Toni Kroos; o que é facto é que o alemão e o croata mexeram bem na organização de jogo quando o jogo assim o pediu), uma linha de 5 a defender em linha e um meio-campo que rapidamente vasculava para as alas sempre que a bola caía em James (mais à esquerda) ou Ronaldo (mais à direita). O treinador português deu muitas indicações durante a primeira meia-hora para os seus alas e devida compensação às alas pressionarem Ronaldo e não deixarem o português embalar pela linha.

O português haveria de criar a primeira situação de perigo logo aos 5″ quando, driblando Safari na direita atirou forte por cima da barra de Vaclik. O checo limitou-se a controlar. Tentando arrefecer qualquer ímpeto inicial que o Real mostrasse no início da partida, o Basileia circulava bem a bola a meio-campo mas não conseguia criar uma jogada digna desse nome. Nem a concertação defensiva haveria de impedir aos 13″ o primeiro golo da partida quando na direita Nacho quis servir Benzema na área e viu a sua tentativa de cruzamento desarmada por Suchy directamente para a baliza do seu guardião. Mesmo a complicar bastante o jogo, o Real iniciava uma goleada de forma tranquila.

O Basileia tentou responder de seguida: Taulant Xhaka esboçou o cruzamento da direita para o experiente Marco Streller que à boa moda de um ponta-de-lança digno da posição se antecipou ao primeiro poste a Pepe e empurrou às malhas laterais da baliza de Casillas com o espanhol a controlar o lance. Casillas foi assobiado durante quase toda a partida, excepção feito aos aplausos que o Bernabeu lhe brindou a meio da primeira parte, ainda por causa dos golos sofridos contra o Atlético de Madrid, golos nos quais, a meu ver, não teve culpa nenhuma.

modric 2

O jogo estava a ser monótono. O Real continuava a apostar num jogo exterior, devidamente distribuído com sucessivas rotações de flanco por parte de Toni Kroos, onde Ronaldo tentava criar desequilíbrios no 1×1 (sem efeitos práticos) ou Marcelo, bem subido no terreno tentava servir Benzema e Bale na área (mais uma vez Bale, Ronaldo e James trocaram várias vezes de posicão, com o galês a iniciar o jogo bem perto do francês). Quando o croata Modric se libertou da pressão que era feita pelo egípcio Elnessy na companhia de Zuffy o jogo acelerou e os merengues construíram o seu resultado.

Logo após uma cabeçada de Pepe que Vaclik teve que defender com uma enorme defesa de recurso, com duas jogadas de génio aos minutos Modric desbloqueou um jogo opaco: aos 29″ quando combinou com Ronaldo num primeiro momento a meio-campo, desmarcando de seguida com um longo passe de trivela Gareth Bale pela esquerda à entrada da área (Bale consumaria o acto de rebeldia do croata com um arqueado chapéu sobre Vaclik seguido de uma emenda triunfal para a baliza do checo) e de seguida, no minuto seguinte, num passe, também ele de trivela para a direita para a corrida de Bale sobre o central Suchy seguido de cruzamento típico para a pequena área onde surgiu Cristiano Ronaldo a empurrar para a baliza do Basileia, fazendo o seu primeiro golo desta temporada na prova (72º na prova; é novamente melhor marcador da prova à condição com mais 1 golo que Lionel Messi).

O croata montou o espectáculo, colheu no seu bolso a aficción que se deslocou ao Bernabeu, meteu a viola no saco e geriu a sua partida da melhor forma que soube.

6 minutos depois seria James a obter o 4º golo: numa fantástica jogada iniciada por Benzema, Ronaldo e Bale demonstraram toda a sua inteligência quando o português, tirando um adversário do caminho da bola já na área viu a movimentação de Bale a entrar na pequena área (processo ofensivo que o português e o galês fazem constantemente) mas também viu que 4 jogadores do Basileia encaminharam-se para anular o galês. De forma inteligente, Ronaldo colocou para trás onde apareceu Benzema sozinho a rematar para defesa incompleta de Vaclik para a frente. Surgido de trás, o colombiano só teve que empurrar para o 4-0.

No minuto seguinte…

Aos 37″ o Basileia resumiu-se à sua defesa. Não conseguindo elaborar uma jogada com cabeça, tronco e membros, a equipa suiça não só perdia demasiadas bolas a meio-campo quando tentava sair como fazia as transições em contra-ataque sempre que podia num ritmo bastante lento que permitia à defesa do Real Madrid reagrupar-se e reorganizar-se rapidamente. Só aos 37″ num lance todo ele desenvolvido ao primeiro toque desde a saída de jogo por parte do veterano Walter Samuel é que a bola veio parar ao paraguaio Derlis Gonzales (aproveitando um furo existente entre Sérgio Ramos e Marcelo; o primeiro porque largou o seu oponente directo para ir pressionar a meio-campo e o lateral porque não fechou o espaço no miolo deixado pelo central) que aproveitou para marcar o tento de honra da sua equipa num remate rasteiro cruzado que não deu hipóteses de defesa a Casillas.

Derlis Gonzalez foi o mais esclarecido em campo por parte do Basileia. O paraguaio revelou-se muito mexido, procurando muito a bola e, sendo rápido na recepção e passe, procurou quase sempre jogar fácil, ou seja, receber, passar novamente e encaminhar-se para um espaço para receber novamente.

No minuto seguinte, Marco Streller cabeceou para defesa fácil do guardião espanhol. O lance colocou novamente a equipa de Ancelotti em alerta e o Real voltou ao ataque, guardando a posse de bola até ao intervalo.

Na 2ª parte, extremamente enfadonha diga-se, Derlis Gonzales tentou o 2º golo mas viu Casillas negá-lo com uma defesa onde mostrou os seus apurados reflexos. Fabian Schar teve uma oportunidade aos 76″ e aos 79″ Benzema e Ronaldo destruíram a defesa de Paulo Sousa e o francês selou a goleada madrilena com o seu poderoso remate.

Crónica #2 – Portugal vs Albânia – Crónica de uma incompetência anunciada

nani

Um dejá vu… Aquela situação anteriormente vista. Aquela estreia sofrida contra uma equipa secundária que redunda num empate… ou numa derrota escandalosa. Os albaneses conseguiram hoje em Aveiro a sua 4ª vitória em rondas de apuramento para uma grande prova internacional. Depois de terem vencido grandes selecções europeias como a Macedónia, o Casaquistão ou a Noruega, a Albânia bate fora a selecção Portuguesa. E a incompetência apregoada pelo líder federativo como explicação do fracasso luso em terras brasileiras estendeu-se desde terras de vera cruz para cá.

Exibição desinpiradíssima de uma equipa que entrou sem dinâmica (o conceito de dinâmica apenas se aplica no primeiro tempo às combinações elaboradas por Nani e João Moutinho no flanco direito; os dois foram os únicos que conseguiram ter a lucidez necessária para tocar o andor para a frente), sem fio-de-jogo (como é que esta equipa poderia ter fio-de-jogo se nunca o teve?; se considerarmos que o único fio-de-jogo da equipa é levar a bola até aos corredores, o lateral e o extremo combinarem entre si e um deles cruzar, sim, esse é o fio-de-jogo da selecção na era Paulo Bento) e acima de tudo sem ideias para dar a volta quando se encontrava a perder.

As oportunidades foram muitas: duas cabeçadas de Ricardo Costa, uma de Pepe a livre de Nani ao lado, um remate de Nani à entrada da área bloqueado por um defesa albanês, um remate em arco de Ricardo Horta na 2ª parte à trave seguida de um autêntico penaste de Pepe por cima da baliza quando o central tinha tempo para dominar e fazer melhor; dois remates de Coentrão da esquerda: um ao lado, outro para Berisha fazer uma defesa para a fotografia).

Não se pode dizer que a Albânia tivesse chegado ao Municipal de Aveiro com a lição estudada. Pouco ou nada se viu desta selecção de leste. Na primeira parte aproveitaram a falta de dinâmica da selecção assim como a escassez de ideias, limitando-se a defender com bastante agressividade (agressividade a mais em alguns momentos do jogo) com uma defesa baixa, onde sobressaiu a marcação individual a meio-campo a João Moutinho. Com um meio-campo e um ataque estático, em muitas ocasiões do jogo, o médio do Mónaco, a passar ao lado de uma grande carreira no clube monegasco, olhava para os colegas mas não tinha linhas de passe. Existiram momentos de jogo em que estavam 5 jogadores nacionais escondidos atrás da linha média dos albaneses, à espera que Moutinho sacasse de um lance que lhes permitisse receber a bola à entrada da área. Depois de uma primeira parte desinspirada, os albaneses acreditaram que poderiam levar mais que um ponto do Municipal de Aveiro e, na única jogada com cabeça tronco e membros, João Pereira facilitou o cruzamento no flanco direito e Pepe, igual a si próprio, a 5 metros do seu marcado directo, deixou o avançado albanês fazer o único golo da partida.

Bento mudou. Tirou William Carvalho (lento de movimentos; interessante na primeira fase de organização de jogo; extremamente permeável do ponto de vista defensivo como de resto viria a verificar-se aos 42″ quando um jogador albanês irrompeu pela área e o trinco do Sporting limitou-se a deixá-lo passar para a linha de fundo, num lance onde felizmente não existiram consequências de maior) e colocou em campo Ricardo Horta. Antes já tinha substituído o queixoso Vieirinha (exibição apagadíssima do extremo do Wolfsburgo durante a primeira parte) para colocar em campo um “inútil” Cavaleiro que mal se viu no 2º tempo, excepto num lance em que quis fintar tudo e todos e levar a bola para casa, deixando-a sair pela linha de fundo. O extremo do Malaga ainda tentou dar alguma dinâmica ao jogo e, poucos minutos depois da sua entrada no rectângulo de jogo sacou do lance mais prodigioso da turma das quintas no inferno de Aveiro, atirando a bola à trave num remate em arco.

A incompetência manteve-se.

Assim como o fio-de-jogo (ou a falta dele) de Paulo Bento. Durante os 90 minutos, os portugueses voltaram a insistir no típico “bola para as alas, combinação entre alas e cruzamento” – este estilo de jogo resulta quando na área se tem um avançado mortífero. Éder não é esse avançado mortífero. Ou pelo menos só o demonstra ser em Braga. A bom da verdade, Éder nem sequer é ponta-de-lança para este estilo de jogo. Sendo um jogador de área (preferencialmente de um toque), não podemos ter lá um ponta-de-lança “só porque sim ou só porque não existe melhor” – Éder não é jogador para vir atrás buscar bola e participar no processo de construção de jogo porque não é um jogador dotado tecnicamente o suficiente para sair da área (e arrastar o seu marcador directo, construído um espaço que deveria obrigatoriamente ser aproveitado por alguém da linha média capaz de aparecer a finalizar) e dar de primeira para as alas de forma a conseguir baralhar as marcações e abrir esse mesmo espaço para a entrada de um 2º jogador. Para além disso, Éder não pode de maneira alguma fazer 2 faltas sobre o central adversário a cada 3 bolas bombeadas para a área ou ser, como o foi hoje, demasiado lesto no ataque às bolas que cruzaram a área e no remate, como o foi numa bola que lhe apareceu na zona de penalty à qual não conseguiu rematar, limitando-se a esperar que o jogador albanês, fortuitamente, o carregasse dentro da área.

Quanto a André Gomes, penso que foi tirada a prova dos 9: o jogador do Valência não joga nada. Não acrescenta nada à equipa. Todos os processos que executa estão carregados de uma lentidão tamanha, convidativa a que a outra equipa se sente numa cadeirinha e espere o previsível passe que o antigo médio do Benfica venha a executar.

Para terminar, destaque para a péssima arbitragem de Ruddy Bouquet. O francês nomeado pela UEFA para esta partida esteve muito mal no capítulo técnico disciplinar. Na primeira parte deixou os albaneses distribuir pancada a gosto. 2 das entradas mais ríspidas (uma sobre Coentrão e outra soube Moutinho roçaram claramente o vermelho directo). Nessa mesma altura deixou o guardião Berisha demorar uma eternidade para bater os pontapés de baliza. Na 2ª parte não viu uma falta descarada sobre Nani e uma grande penalidade sobre Pepe. Contudo, a péssima arbitragem do francês não apaga a péssima exibição portuguesa na partida desta noite.

Já diz o ditado antigo que “não basta parecer a mulher de César, é preciso sê-la” – este velho provérbio de origem Romana encaixa que nem uma luva para o presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Os problemas de fundo do futebol português que foram amplamente debelados após a eliminação do mundial não podem ser resolvidos com paninhos quentes. Não se pode atirar areia para os olhos na admissão de incompetência de toda a comitiva se as estruturas não forem radicalmente abaladas. As mudanças elaboradas no seio das selecções, em específico, da selecção sénior acabaram por provar que se calhar os únicos incompetentes foram os anteriores médicos da mesma. Ou somos todos incompetentes e damos lugar a quem seja mais competente que nós, ou então, à boa moda portuguesa, enterra-se a viola no saco, assobia-se ao ar e, como dizem nuestros hermanos espanhóis “no pasa nada” – Fernando Gomes optou pelo 2º modelo de conduta e poderá estar acometido a morrer pela boca como o peixe.

P.S: Não se esperem facilidades nos próximos jogos. A Arménia esteve muito perto de tirar dividendos da visita a Copenhaga, tendo estado a vencer por 0-1. Os dinamarqueses viraram o resultado para 2-1 no 2º tempo mas os armenios deram um alerta: estão no Grupo I para lutar pelas vagas que dão apuramento directo. Se esta Albânia, uma equipa sem disciplina táctica e sem jogadores tecnicamente dotados, conseguiu vir buscar 3 pontos a Aveiro, os Armenos, 100 vezes maisn disciplinados tacticamente e capacitados tecnicamente poderão vir a Portugal fazer o mesmo.