Bruno de Carvalho e os fundos de investimento em jogadores.

Continuo a assumir as palavras que publicamente escrevi sobre a “estranha cruzada de Bruno de Carvalho” contra os fundos de investimento em jogadores. O comportamento hostil que o presidente do Sporting iniciou contra os fundos de investimento em jogadores no dossier da transferência de Marcos Rojo para o Manchester United (rompendo a ligação com a Doyen Sports, fundo de jogadores com sede em Malta ligado a Peter Kenyon e Jorge Mendes que ajudou o Sporting a adquirir 75% dos direitos económicos de Marcos Rojo ao Spartak de Moscovo; dos 4 milhões de euros, a Doyen pagou 3 e o Sporting 1; o Sporting rompeu a ligação à Doyen e ainda não ressarciu o fundo de cerca de 15 milhões de euros resultantes da venda do jogador ao United) poderá ser prejudicial para o Sporting dado que a SAD do clube leonino, não dispondo de capitais próprios que lhe permitam ir ao mercado buscar jogadores de qualidade a custos elevados nem de linhas de crédito junto da banca para o mesmo efeito, perde assim importantes parceiros na aquisição de jogadores que de outras formas de financiamento o clube jamais poderia alcançar bem como uma rede de parceiros que permitam ao clube refinanciar-se em alturas de aperto financeiro, principalmente de tesouraria, com a alienação de percentagens de direitos económicos de jogadores. Nenhum investidor estará portanto disposto a colaborar com um clube que num primeiro momento se usa do seu capital para adquirir x, para, num segundo momento, rasgar de um momento para o outro os contratos assinados.

Contudo, depois de ler este artigo do Guardian começo a depreender qual é a estratégia concreta do presidente do Sporting: estando o clube em ruptura com os fundos de Kenyon (a Doyen Sports, os vários fundos da Quality Sports Investment) e a negociar cada vez menos com Jorge Mendes, e, aproveitando uma conjuntura em que tanto a FIFA como a UEFA como o Tribunal Arbitral do Desporto (TAS) estão empenhados em criar jurisprudência, a ideia passa acima de clube por cortar as vazas que Jorge Mendes dá aos rivais, ou seja, enfraquecendo o Sporting o superagente (não duvido nada que tenha sido a partir da participação do presidente no Forum Soccerex durante este mês em Manchester, fórum da modalidade no qual o presidente do Sporting sacou muitos elogios numa palestra sobre fundos, que alguma informação tenha sido revelada ao Guardian), estando os dois rivais (FC Porto) muito dependentes da relação que detém com fundos, entre os quais os de Kenyon, nos quais Jorge Mendes é o principal consultor de compras de activos (a Porto e Benfica), agente e vendedor desses activos, e cada vez mais endividados junto da banca comercial, que, depois de alguns problemas nas linhas de financiamentos (exemplo do Benfica com o BES) está a tentar afastar-se do futebol, se Mendes for encostado contra a parede pela FIFA ou pelas entidades judiciais portuguesas, inglesas ou espanholas (por violação das regras resultante do conflito de interesses que tem perante os seus agenciados; por eventual evasão fiscal) os rivais ficarão sem alguns dos seus mais importantes parceiros de negócio e, em virtude disso, não poderão adquirir jogador de tanta qualidade ou realizar alienações e vendas que garantam bons encaixes financeiros.

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7 thoughts on “Bruno de Carvalho e os fundos de investimento em jogadores.

  1. A cruzada do Bruno de Carvalho contra os fundos faria mais sentido se ele não tivesse “rasgado” o contrato com a Doyen Sports imediatamente após a venda do passe do Rojo. Por mais fundamentada e lógica que seja a posição do Bruno de Carvalho relativamente à Doyen Sports relativamente ao contrato que envolve o negócio do passe do Rojo, a ideia que fica no ar é a de uma enorme deslealdade com muita “chico-espertice” à mistura.
    Ainda que mal comparado, em 1990 Jean-Marc Bosman deu início a uma cruzada que culminou na mais do que conhecida Lei Bosman. Nessa cruzada, Bosman contou com o apoio da generalidade dos interessados (jogadores, clubes, agentes) porque havia mais gente a ganhar do que a perder. Já Bruno de Carvalho pretende lutar contra quem controla o dinheiro que faz melher a indústria do futebol. Poderá ter apoios, mas nunca o suficiente. Estará praticamente sozinho e numa autêntica “guerra de Pirro”, o Sporting acabará por arcar com as consequências. O que se publica na imprensa inglesa pode dar razão ao que diz o presidente do SPC e dar-lhe razões para uma cruzada, quiçá, quixotesca. Mas daí a ter clubes ingleses como camaradas de guerra… O Sporting é damasiado pequeno (sem ofensa) para ter os grandes clubes ingleses como aliados, seja no que for.
    Esperemos que com a guerra contra os fundos o Bruno de Carvalho não leve o Sporting Clube de Portugal ao fundo!
    P.S. Este comentário é de um Benfiquista.

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    • A tua opinião não anda longe da minha. Contudo não concordo em algumas ideias que aí deixaste. Passo a citar:
      – Bruno de Carvalho não está sozinho nesta cruzada. Bastará apenas dizer-te que quem iniciou esta guerra contra os fundos foi a própria UEFA de Michel Platini. Existem neste momento vários campeonatos europeus nos quais, por estatutos, a parceria com fundos é expressamente proibida. Casos do inglês, do holandês e do alemão, ou seja, 3 campeonatos (entre vários como os nórdicos, suiço) de peso do futebol europeu. Em Inglaterra e na Alemanha ninguém poderá adquirir percentagens de jogadores a fundos assim como alienar percentagens ou a totalidade do passe dos atletas aos mesmos.
      – O Sporting não está a pedir a ajuda de ninguém. Mesmo no caso Rojo, o caso foi encaminhado para o Tribunal Arbitral do Desporto que a seu tempo se pronunciará sobre a situação.

      Sendo um clube com parcos recursos económicos, tanto vindos de capitais próprios como de linhas de crédito bancárias, os fundos poderiam servir de parceiros para a aquisição de jogadores de qualidade que em outra situação acima enunciada nunca poderiam estar ao alcance do Sporting. Mesmo em situações de carência de tesouraria, os clubes vêem nos fundos uma boa opção (se a gestão das percentagens alienadas for bem executada) para refinanciar a sua actividade. Todos os passes alienados poderão ser renegociáveis junto dos fundos, sabendo que estes não ficarão a perder em nenhum negócio. Porém, para quem está a curto prazo com o credo na boca, são efectivamente uma boa forma de refinanciamento.
      Concordo quando dizes que a estratégia tomada no caso Rojo foi um caso de chico-espertismo. O departamento juridico apanhou alguns vícios cometidos pelo fundo num comunicado para denunciar o contrato estabelecido com o fundo e rescindi-lo. Não quero avançar quem é que tem razão; existem instituições jurídicas aptas para julgar esses casos. Mas eticamente, a atitude tomada foi reprovável e afastou os fundos de investimento de Alvalade.
      O Sporting poderá estar a capitalizar algumas irregularidades que Jorge Mendes tem vindo a praticar para praticar danos colaterais aos dois clubes portugueses que mais tem a lucrar com Jorge Mendes. Admito perfeitamente essa possibilidade. A estratégia tomada é arriscada mas acredita que isso não vai levar o Sporting ao fundo porque o Sporting com Bruno de Carvalho já re-estabeleceu aquela que deve ser a filosofia do clube: viver essencialmente com a formação, como um clube de formação que apenas contrata para preencher lacunas de plantel que a formação não consegue colmatar.
      P.S: Este comentário é de um conhecido teu de outras andanças.

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  2. Este é daqueles casos em que nada como esperar para ver no que dá. Pessoalmente, também sou totalmente contra os fundos e comissionistas de jogadores de futebol, mesmo sabendo que é à custa deles que o meu clube tem tido um plantel bom e competitivo, ano após ano. É uma irracionalidade, mas como mero adepto posso ser irracional a este ponto :-).
    Já Bruno de Carvalho é muito mais do que adepto. É presidente do clube de que é adepto. Logo, deve ter uma estratégia empresarial muito bem definida e o menos emocional possível (se não conseguir ser totalmente objectivo). Deve resistir ao uso de fórmulas fáceis para o aquisição/manutenção do populismo, i.e. dizer à boca cheia que pretende processar Godinho Lopes pela renovação do contrato do Izmaylov (por exemplo), a par de contratações falhadas e com prejuízos para o clube, quando ninguém sabe o que se passa com Shikabala, desde que foi contratado até hoje. É uma irracionalidade que não pode nem deve ser levada avante, e muito menos tornada pública (esta é a minha modesta opinião).
    Vou seguir esta questão dos fundos e “mendices” com interesse, pois nalgumas coisas estamos de acordo. Saudações desportivas de um Benfiquista de pai e mãe, mas cuja cor preferida é verde 🙂 É irracional? É, mas eu posso sê-lo. O presidente do Sporting Clube de Portugal, não! 🙂

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    • Como já é publico, o Shikabala anda desaparecido há 12 dias. Ao contrário de outros clubes, como aconteceu no Porto com o desaparecimento do Ismailov, no Sporting ninguém tenta tapar o sol com a peneira.
      Quanto ao Godinho Lopes, talvez devas saber que se encontra em andamento uma auditoria em curso, encomendada a uma das big four do sector (KPMG). Foi uma promessa eleitoral do presidente, que, enquanto tal, sempre afirmou que pretende processar todos aqueles cuja auditoria confirmar como agentes que prejudicaram o Sporting através de actos de gestão danosa.

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  3. A ideia que tenho é que tens entendido os meus comentários ao teu artigo como “ataques” a Bruno de Carvalho. O facto de o Izmailov, ao serviço do FCP, ter desaparecido com os responsáveis do FCP a taparem o sol com a peneira, iliba Bruno de Carvalho de uma contratação que (infelizmente) deu para o torto? Enquanto houver outros a fazer merda, o Bruno de Carvalho tem carta branca para o fazer também e com a impunidade? Não me interpretes mal. Limitei-me apenas a comentar o teu artigo.
    Quanto à auditoria, ela fica-se pela gestão de Godinho Lopes ou vai um pouco atrás, tipo Sousa Sintra, que cometeu também as suas argoladas? Com esta coisa da auditoria-tipo-caça-às-bruxas, não estará Bruno de Carvalho a por-se a jeito para provar no futuro um pouco do seu (eventual) próprio veneno? Pura retórica!
    Já agora, nunca pensei dizer isto enquanto Benfiquista, mas espero que o Sporting ganhe esta sexta-feira. Não por simpatia, mas porque no meu entender, serve mais ao Benfica uma vitória do Sporting do que do FCP! 🙂
    Saudações

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    • Não estou a encará-los como um ataque a ninguém. Estou apenas a rebater algumas das ideias que deixaste neles.
      A auditoria às contas de todo o Grupo Sporting (Sporting Clube, Sporting SAD, Sporting SGPS) está a ser realizada com base em todos os negócios praticados desde 1992, ou seja, desde Sousa Cintra. Essencialmente, poderá dizer-se que estão a ser investigados todos os actos danosos que ainda são passíveis de recurso à justiça. Não posso de maneira nenhuma dizer hoje que o Bruno de Carvalho também os esteja a fazer e que no futuro outro presidente também possa levantar uma contra o trabalho de Bruno de Carvalho. No actual paradigma do mercado de trabalho, todo o trabalho que realizamos está sujeito a escrutínio por parte de outrém e à devida responsabilização criminal caso lese interesses de quem nos contratou ou de quem contrata serviços a quem nos contratou. Entende que esta medida foi prometida pelo Bruno de Carvalho em plena campanha eleitoral. Se não a aplicasse na prática, estaria a ser hipócrita.

      Quanto ao Shikabala, penso que o Sporting tem sido bastante transparente em todo o processo: quando o jogador ficou retido no Egipto, o clube confirmou pela via oficial essa retenção. Nunca foi negado que o jogador estava sob alçada disciplinar por ter ficado retido no Egipto, iniciou-se um processo de investigações para apurar as responsabilidades desse mesmo problema e, quando alegadamente, apareceu aí um pseudo agente do jogador que não foi nada mais nada menos que o intermediário do negócio entre Zamalek e Sporting a afirmar que a Sporting SAD não o tinha deixado negociar para um clube grego, o Sporting fez questão de afirmar pela via oficial que o dito empresário não era o representante oficial do jogador.
      Não me importo nadinha que ele esteja desaparecido. Até hoje não vi rigorosamente nada dele que faça merecer a sua permanência em Alvalade. Logo, por mim até pode rescindir. Aquele clube não pode ter constantes focos de problemas.

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  4. P.S: Ao contrário do caso Ismailov, que como sabes durou meses. Não foi só ambigua a postura da comunicação social no tratamento do caso tendo como comparação a maneira como o fez quando o jogador andava desaparecido no Sporting como na época passada vimos o Paulo Fonseca por diversas vezes vir a público afirmar que o jogador andava (durante meses) a tratar de problemas pessoais.

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